O canabidiol (CBD) é uma substância medicinal extraída da cannabis que já é usado por milhares de pacientes no Brasil. Uma planta nativa brasileira pode mudar também a forma como ele é produzido.
O que é o canabidiol
O CBD é um dos compostos ativos da planta Cannabis sativa. Diferente do THC, o outro composto famoso da cannabis, o canabidiol não tem efeito psicoativo. Ele não causa alteração de consciência nem sensação de “barato”.
A substância age no sistema endocanabinoide, uma rede de receptores presente no corpo humano que regula funções como sono, dor, humor e resposta imunológica. Estudos publicados em revistas como o International Journal of Molecular Sciences descrevem o CBD como um modulador desse sistema, com atuação em múltiplos receptores e vias inflamatórias.
Quem é beneficiado
O uso com maior respaldo científico é no tratamento de epilepsia resistente a medicamentos. Uma meta-análise publicada na Acta Epileptologica (2025) reuniu ensaios clínicos e confirmou redução significativa na frequência de crises em pacientes que não respondiam às terapias convencionais. O FDA americano aprovou o Epidiolex, medicamento à base de CBD, justamente para síndromes epilépticas graves como Dravet e Lennox-Gastaut.
Outras condições também têm evidências em curso:
- Dor crônica: uso em doenças degenerativas e cuidados paliativos
- Ansiedade e distúrbios do sono: resultados promissores, mas ainda sem padronização clínica definitiva
- Transtorno do Espectro Autista (TEA): pesquisas em andamento sobre qualidade de vida
O uso deve ser sempre feito com prescrição médica. O médico define a dose e acompanha possíveis efeitos colaterais, que podem incluir sonolência, boca seca e alterações no apetite.
Como se compra e consome no Brasil
A forma mais comum é o óleo oral, administrado em gotas. Ele pode ser adquirido em farmácias nacionais com produto registrado ou via importação autorizada pela Anvisa.
Em janeiro de 2026, a Anvisa regulamentou todas as etapas da cadeia produtiva, permitindo que empresas autorizadas plantem e processem a cannabis em solo brasileiro. Farmácias de manipulação credenciadas também passaram a poder preparar produtos à base de CBD com as novas regras. Isso amplia o acesso e pode reduzir custos, mas a mudança ainda está em fase de implementação.
O Brasil produz? Quem lidera no mundo?
Os Estados Unidos lideram a produção e o mercado global de CBD. A América do Norte concentrou mais de 85% da receita mundial do setor em 2025, segundo levantamento da Grand View Research. O país combina regulação mais permissiva, escala industrial e forte investimento em pesquisa farmacêutica.
O Brasil, historicamente, dependeu de importações para obter a matéria-prima. Isso começa a mudar. A Fiocruz já tem autorização para produzir canabidiol nacionalmente. No setor privado, empresas como a FarmaUSA produzem o insumo farmacêutico ativo em território brasileiro. O potencial é real: clima tropical, solo fértil e biodiversidade única colocam o Brasil em posição estratégica para se tornar produtor relevante.
O que é a Trema micrantha e por que ela importa
Uma descoberta feita na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pode mudar o cenário de acesso ao CBD no Brasil e no mundo.
O professor Rodrigo Soares Moura Neto, do Instituto de Biologia da UFRJ, identificou canabidiol (CBD) nos frutos e flores da Trema micrantha, uma árvore nativa do Brasil conhecida popularmente como pau-pólvora, crindiúva ou periquiteira. O dado mais relevante: a planta não apresentou evidência de presença relevante de THC nos estudos iniciais.
Isso importa por três razões práticas:
- Sem barreiras legais: como não contém substância psicoativa, o cultivo da Trema pode enfrentar menos barreiras regulatórias no futuro, caso os estudos avancem.
- Custo potencialmente menor: a planta cresce em todo o território nacional, de forma rápida e espontânea, e é amplamente usada em projetos de reflorestamento.
- Fonte alternativa de CBD puro: a extração ocorre sem risco de contaminação por THC, simplificando o processo produtivo e o controle regulatório.
A pesquisa recebeu financiamento público de cerca de R$ 500 mil e avança para a fase de testes de toxicidade, eficácia e métodos de extração. O professor Moura Neto também trabalha no mapeamento genético da espécie para entender por que ela produz CBD mas não THC.
O que ainda não se sabe
A pesquisa com a Trema micrantha ainda não foi publicada em periódico científico revisado por pares. Os resultados iniciais são promissores, mas a eficácia clínica do CBD extraído da planta em comparação ao derivado da cannabis ainda precisa ser comprovada em estudos controlados. O próprio pesquisador estimou que o projeto completo levará pelo menos cinco anos.
Enquanto isso, o acesso ao canabidiol no Brasil segue desigual. Quem tem condições financeiras trata. Quem não tem, depende de decisão judicial ou fica sem atendimento.
📷 Imagem gerada por IA para fins de ilustração
Fontes científicas e acadêmicas:
- Ong et al. SAGE Journals, 2025. DOI: 10.1177/17562864251313914
- Maged R. et al. Acta Epileptologica, 2025. DOI: 10.1186/s42494-024-00191-2
- Patel A.D. et al. Epilepsia, 2025. DOI: 10.1111/epi.18496
- MDPI. International Journal of Molecular Sciences, 2024. DOI: 10.3390/ijms25084204
- Neto R.S.M. Instituto de Biologia, UFRJ. Comunicado de pesquisa, 2023.
- Grand View Research. Cannabidiol Market Size and Share Report, 2025.
- Anvisa. Resolução RDC sobre cannabis medicinal, janeiro de 2026.










