O consumo abusivo de álcool entre mulheres brasileiras dobrou nas últimas duas décadas e virou um problema de saúde pública. Os dados mais recentes, de 2026, mostram que o problema vai além da saúde individual: em São Paulo, 70 mulheres são agredidas por dia em ambientes onde bebidas alcoólicas estão presentes.
O que dizem os números
O álcool mata 12 pessoas por hora no Brasil, o que representa cerca de 105 mil mortes por ano, segundo estudo da Fiocruz com base em estimativas da OMS. As principais causas são doenças cardiovasculares, acidentes e violência.
As mortes atribuídas ao consumo de álcool entre mulheres aumentaram 20% entre 2013 e 2023, segundo o Cisa. No mesmo período, as internações ligadas ao uso de bebidas alcoólicas cresceram 41%, considerando o intervalo de 2014 a 2024.
O consumo abusivo também cresceu: a proporção de mulheres que relataram episódios de consumo excessivo passou de 9,2% para 15,7% entre 2006 e 2024, segundo o Vigitel. Entre os homens, o índice ficou praticamente estável no mesmo período.
Em 2012, apenas 31,2% das mulheres consumiam álcool. Em 2023, esse percentual saltou para 47%, quase igualando o dos homens, segundo o LENAD III, realizado pela Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça.
Por que isso aconteceu
Pesquisa da UFMG aponta que as mudanças no padrão de consumo entre mulheres podem estar relacionadas ao crescimento da participação feminina no mercado de trabalho, ao marketing direcionado e à pandemia de Covid-19.
Por que isso importa além do consumo em si? As mulheres têm menos água no corpo e menos enzimas que metabolizam o álcool, o que as torna biologicamente mais vulneráveis. Isso significa que desenvolvem problemas relacionados ao álcool mais cedo, mesmo com consumo menor do que o dos homens.
Entre os riscos: doenças hepáticas, problemas cardiovasculares, depressão, ansiedade e câncer de mama. Cada 10 gramas de álcool consumidos por dia aumentam em cerca de 7% o risco da doença.
O álcool e a violência dentro de casa
O impacto não para na saúde de quem bebe. Um levantamento com base em registros da Polícia Civil aponta que o consumo de álcool esteve presente em 50.805 ocorrências de violência doméstica em São Paulo entre 2023 e 2024, uma média de 70 casos por dia.
O estudo, produzido pelo Instituto Sou da Paz com apoio da ACT Promoção da Saúde, estima que 35% dos feminicídios no período analisado apresentaram indicação de uso de álcool. Um a cada três feminicídios.
Entre as vítimas, 93% são mulheres. Entre os agressores, 95% são homens. A maior parte dos casos envolve parceiros íntimos e as ocorrências se concentram nos fins de semana, à noite e dentro de casa.
O que muda com a nova lei
Em novembro de 2025, o Congresso reagiu. O Senado aprovou o PL 2.880/2023, que altera a Lei 11.343/2006 para criar uma estratégia específica de atendimento multiprofissional e interdisciplinar voltada a mulheres usuárias e dependentes de álcool, com atenção especial a gestantes.
No entanto, a lei funciona como diretriz geral. Os efeitos práticos dependem de regulamentação posterior pelo Ministério da Saúde, o que ainda não aconteceu.
Quem é mais afetado
O problema não atinge todas as mulheres da mesma forma. O Panorama 2025 do Cisa destaca o crescimento mais intenso entre mulheres jovens, de 18 a 34 anos, e entre pessoas com maior escolaridade. Mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social também estão entre os grupos com menor acesso a tratamento especializado.
Isso muda algo na sua vida?
Se você ou alguém próximo enfrenta esse problema, a rede pública oferece atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS AD). O CVV atende pelo número 188, 24 horas por dia.
Para as políticas públicas, a lei aprovada é um primeiro passo. Mas sem regulamentação e investimento, ela permanece no papel.
FONTES
- Vigitel 2024, Ministério da Saúde — saude.gov.br
- LENAD III (2025), Unifesp/Ministério da Justiça e Segurança Pública — gov.br/mj
- Panorama 2025, Cisa — cisa.org.br
- Fiocruz/OMS, Estimação dos Custos Diretos e Indiretos atribuíveis ao Consumo do Álcool no Brasil — fiocruz.br
- Instituto Sou da Paz e ACT Promoção da Saúde (2026) — dados via Lei de Acesso à Informação/SSP-SP
- PL 2.880/2023, Senado Federal — senado.leg.br
- Lei 11.343/2006 (Sisnad) — planalto.gov.br
📷 Imagem gerada por IA para fins de ilustração








