O atual Ministro da Fazenda é Dario Durigan, que assumiu oficialmente o cargo em 20 de março desse ano. Ele substituiu Fernando Haddad, que deixou o governo para concorrer ao governo de São Paulo. Sua chegada ao topo da pasta econômica mais poderosa do país não é apenas uma mudança de gestão — é o desfecho de uma trajetória que mistura direito público, política progressista e, de forma surpreendente, uma passagem pelo coração do capitalismo de plataforma.
Formação e trajetória: o jurista que veio das plataformas
A formação de Durigan é sólida e inequívoca para o setor público. É advogado formado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Direito e Pesquisa Jurídica pela Universidade de Brasília (UnB). Sua carreira foi construída nas trincheiras do Estado:
- Trabalhou na Subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil durante a gestão de Dilma Rousseff
- Foi assessor especial de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo até 2016
- Atuou como consultor jurídico da União em São Paulo e fundou o Núcleo de Arbitragem da AGU (Advocacia-Geral da União)
No Ministério da Fazenda, desde junho de 2023, Durigan ocupava o cargo de Secretário-Executivo — o “número dois” da pasta —, onde foi peça-chave na articulação de medidas como o novo arcabouço fiscal e o aumento de tributos. Ele assumiu a pasta em um momento delicado, marcado por tensões externas (crise do petróleo e guerra) e pelo chamado “escândalo Master” no setor bancário. Embora seu nome não esteja envolvido diretamente nesses casos, a gestão dessas crises é o seu principal desafio político atual.
A dualidade que incomoda: discurso soberanista, quadros das big techs
Mas aí vem o que é no mínimo estranho. Antes de retornar ao governo em 2023, Durigan foi diretor de políticas públicas do WhatsApp (Meta) de 2020 a 2023.
Essa aparente contradição é, de fato, um dos pontos mais debatidos por críticos e analistas políticos. Enquanto o presidente Lula mantém uma retórica forte contra o poder das big techs — chamando-as de “patrimônio americano, não nosso” e defendendo a soberania nacional digital —, o Ministério da Fazenda sob sua gestão integrou executivos vindos justamente dessas empresas.
Durigan não foi o único. O chileno Pablo Bello, também ex-executivo da Meta, atuou como assessor especial na Fazenda, focando justamente em temas como a regulação concorrencial do setor tecnológico.
O debate: argumento do governo versus crítica da oposição
A justificativa para essas escolhas costuma ser técnica. O governo defende que precisa de pessoas que entendam profundamente o funcionamento dessas plataformas para conseguir taxá-las e regulá-las de forma eficaz. Durigan, por exemplo, tem sido o articulador de projetos para aumentar o poder do Cade sobre as big techs e criar um imposto sobre serviços digitais (Digital Tax).
Os dados públicos, porém, contam uma história diferente do discurso. Levantamento da Folha de S. Paulo com base no Sistema de Comunicação de Governo (Sicom) revelou que, em 2025, o Google recebeu ao menos R$ 64,6 milhões e a Meta obteve R$ 56,9 milhões em publicidade federal — colocando essas empresas no topo do ranking de beneficiados pela propaganda governamental, atrás apenas dos grupos Globo e Record. O orçamento total empenhado para propaganda atingiu R$ 1,5 bilhão no último ano, o maior valor desde 2017.
Na oposição, parlamentares foram além das palavras. O senador Rogério Marinho (PL-RN) e o deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS) protocolaram pedido de investigação sobre a megalicitação da Secom avaliada em R$ 197 milhões, o que resultou na suspensão do processo. Para esse campo, a contradição entre o discurso soberanista de Lula e o volume de recursos destinados às mesmas plataformas criticadas pelo presidente é emblemática.
No campo da regulação de conteúdo, o resultado também é palpável: o chamado “PL das Fake News” perdeu força e não foi votado. Especialistas em liberdade de expressão apontam que a regulação ampla das big techs não se concretizou — e levantam a hipótese de que a presença de ex-executivos dessas empresas no Ministério da Fazenda pode ter deslocado o foco da agenda regulatória para a dimensão tributária e concorrencial, deixando de lado o controle sobre o conteúdo das plataformas.
Existe uma dualidade estrutural no governo Lula: o presidente usa a crítica às big techs como bandeira política de soberania nacional, enquanto o Ministério da Fazenda absorve profissionais egressos dessas mesmas empresas sob o argumento pragmático de que eles possuem o conhecimento técnico necessário para implementar a agenda de arrecadação sobre esse setor. Se essa é uma escolha estratégica inteligente ou uma contradição reveladora, o tempo — e as políticas efetivamente aprovadas — dirão.










