A Serra Verde, detentora da única mina de terras raras em operação comercial no Brasil, teve seu controle adquirido pela americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões. O negócio, anunciado em abril de 2026, coloca o país no centro da disputa global por minerais essenciais para carros elétricos, drones e equipamentos militares.
O que são terras raras
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em tecnologias estratégicas: baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, ímãs de alta performance e equipamentos de defesa. Apesar do nome, não são tão raras no subsolo. O problema é que pouquíssimos países têm capacidade de extrair e refinar esses minerais em escala industrial.
A China domina cerca de 70% da extração global e mais de 90% da capacidade de refino de terras raras, o que lhe dá controle sobre preços e oferta em todo o mundo.
Como funciona a Serra Verde
A Serra Verde é dona da mina e planta de processamento Pela Ema, em Minaçu (GO), que entrou em produção comercial em 2024 após mais de US$ 1,1 bilhão em investimentos.
A operação é a única fora da Ásia capaz de produzir em grande escala os quatro elementos magnéticos mais críticos: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb). Esses minerais são indispensáveis para ímãs permanentes usados em carros elétricos, robôs e drones militares.
Por que os EUA compraram
O aporte de US$ 565 milhões da agência governamental americana DFC (International Development Finance Corporation) à Serra Verde integra a estratégia dos Estados Unidos para reduzir a dependência da China em minerais críticos.
Com a China restringindo exportações de terras raras nos últimos meses, os EUA aceleraram a busca por fontes alternativas. O negócio inclui ainda um contrato de fornecimento exclusivo de 15 anos de toda a produção da fase inicial da mina, com preços mínimos garantidos, para uma estrutura capitalizada pelo governo americano.
A Serra Verde sempre teve controle acionário estrangeiro
Um ponto pouco discutido no debate público: a Serra Verde foi constituída em 2010 com capital integralmente estrangeiro: Denham Capital (Boston), Energy & Minerals Group (Houston) e Vision Blue Resources (Reino Unido). O que ocorreu em abril de 2026 foi uma troca de controle entre grupos estrangeiros.
Por isso, a polêmica política em torno do caso tem gerado acusações cruzadas. A Secom do governo federal sustenta que “a soberania nacional sobre os recursos minerais é plenamente preservada”, já que os minerais permanecem como bens da União (art. 20, IX, CF/1988), independentemente de quem controla a mineradora.
O que muda para o Brasil
Na prática, o país segue como dono do subsolo, mas especialistas do setor avaliam que o Brasil perde protagonismo na cadeia produtiva. Sem contrapartidas que obriguem a instalação de capacidade de processamento no Brasil, o país corre o risco de consolidar sua posição apenas como exportador de matéria-prima, perdendo poder de barganha e autonomia na definição de preços no longo prazo.
O negócio também acelerou o debate no Congresso. A Câmara aprovou, em 6 de maio de 2026, um projeto de lei para regulamentar o setor de minerais críticos. Além disso, o governo Lula anunciou uma Política Nacional de Terras Raras e a criação de um Conselho Nacional de Política Mineral, composto por 16 ministros, para analisar qualquer operação envolvendo ativos estratégicos do país.
A operação também chegou ao STF: o STF recebeu a ADPF 1320, apresentada pela Rede Sustentabilidade, questionando as operações societárias com a USA Rare Earth. A ação está sob relatoria do ministro Kassio Nunes Marques.
O Brasil tem outras jazidas
A Serra Verde não é a única reserva. O Brasil detém reservas potenciais de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, o segundo maior estoque do mundo, atrás apenas da China. Grandes jazidas em Araxá (MG) e Poços de Caldas (MG) estão em fase avançada de pesquisa e licenciamento. A diferença é que nenhuma delas produz ainda em escala comercial.
Isso significa que, por enquanto, quem quiser comprar terras raras brasileiras, compra da Serra Verde, agora sob controle americano.
Fontes:
- USA Rare Earth — comunicado oficial à imprensa (20/04/2026): investors.usare.com
- Agência Brasil / EBC — reportagem sobre terras raras e minerais estratégicos (abril/2026)
- Constituição Federal do Brasil, art. 20, IX (CF/1988)
- PL 1754/2026 e PL 1733/2026 (Câmara dos Deputados)
- DFC — U.S. International Development Finance Corporation
- Serviço Geológico do Brasil (SGB) — potencial nacional de terras raras
- STF — ADPF 1320, relator ministro Kassio Nunes Marques (noticias.stf.jus.br)
- Agência Lupa — checagem sobre soberania mineral (05/05/2026)
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