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Ciro propõe trégua com a direita para derrotar o PT no Ceará: pragmatismo ou desespero eleitoral?

O ex-ministro Ciro Gomes, agora filiado ao PSDB, reafirmou em março de 2026 o desejo de unir toda a oposição cearense para enfrentar o governador Elmano de Freitas (PT) nas eleições estaduais. O movimento mais polêmico dessa estratégia é a aproximação com o Partido Liberal (PL) — legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro —, parceria que ele mesmo jamais teria imaginado anos atrás.

A aliança tem avanços concretos no plano local. Lideranças do PL Ceará, como o deputado federal André Fernandes, sinalizaram apoio à pré-candidatura de Ciro ao governo do estado, reservando inclusive uma vaga na chapa majoritária. Recentemente, o partido definiu Alcides Fernandes como candidato único ao Senado em composição que favorece a frente encabeçada por Ciro.

O caminho até aqui foi tortuoso. Nas eleições municipais de Fortaleza em 2024, Ciro e seus aliados apoiaram André Fernandes contra o candidato petista, consolidando um racha definitivo com seu irmão, Cid Gomes. Em outubro de 2025, Ciro deixou o PDT após a sigla se aliar ao PT no Ceará, migrando para o PSDB com o objetivo de construir uma frente ampla que inclua PL e União Brasil.

Mas a aliança enfrenta resistência de peso. Michelle Bolsonaro criticou publicamente o acordo, classificando-o como “jogo sujo” e chegando a suspender temporariamente as tratativas em dezembro de 2025, após tensões com André Fernandes por sua proximidade com Ciro. Apesar disso, negociações com o senador Flávio Bolsonaro seguem em curso — embora Ciro resista a apoiar explicitamente uma eventual candidatura presidencial do senador.

Por trás da articulação política, está um diagnóstico duro sobre o estado. “O Ceará hoje não é comandado pela lei, nem pelo Judiciário e nem pelo Executivo, é comandado pelas facções criminosas”, declarou Ciro publicamente. A afirmação é contestada pelo governo estadual, mas dados recentes dão substância ao debate.

Segundo boletins da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), facções como Comando Vermelho, PCC, Guardiões do Estado (GDE) e o grupo Massa disputam territórios em bairros de Fortaleza e municípios do interior. Há registros de 219 famílias expulsas de suas casas em um único relatório de 2025 e denúncias de infiltração do crime organizado em prefeituras e câmaras municipais.

O próprio governo reconhece os avanços das forças de segurança: as prisões por integrar organizações criminosas cresceram 113,3% em janeiro de 2026 em relação ao ano anterior, e fevereiro de 2026 foi apontado como o mês menos violento desde 2009.

O paradoxo é visível. Ciro aposta em uma aliança ideologicamente improvável para governar um estado onde o crime organizado tornou-se pauta eleitoral central. Se a trégua com a direita vai se sustentar até outubro — e se será suficiente para vencer — ainda está em aberto.


Fontes consultadas: Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) — www.sspds.ce.gov.br; Tribunal Superior Eleitoral — www.tse.jus.br; Senado Federal — www.senado.leg.br.

Foto: Hermano El Grande

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