Historiadora explica como a corrupção no Brasil tem raízes coloniais

Adriana Romeiro, historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais.

Como a corrupção no Brasil tem raízes que vêm do período colonial

A corrupção no Brasil não começou com a República. Uma historiadora da UFMG mostra que o desvio de poder era debatido e condenado muito antes das leis modernas existirem.


Corrupção como doença, não como crime

Adriana Romeiro, historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, tornou-se referência no estudo da corrupção no Brasil Colonial. Suas pesquisas mostram que o desvio de poder era tratado, nos séculos passados, como uma doença moral que contaminava o governo inteiro.

Os textos políticos da Época Moderna usavam um vocabulário médico para descrever o Estado em colapso: palavras como “enfermidade”, “infeccionar” e “apodrecer” descreviam o que acontecia quando os governantes agiam em benefício próprio. O corpo da República era visto como o corpo humano. Se os funcionários agiam com vício, infectavam o organismo inteiro.


O mau político já tinha nome

O trabalho de Romeiro desfaz um mito comum: o de que a corrupção era tolerada no passado por falta de regras. Os brasileiros daquela época tinham palavras e conceitos definidos para nomear o mau governante.

O esquema era claro. De um lado, o ideal de bom governo: bem comum, justiça e saúde do corpo político. Do outro, a corrupção da República: interesse particular, injustiça e tirania. Não havia zona cinzenta.


Por que o brasileiro ainda liga corrupção a caráter?

As pesquisas de Romeiro ajudam a responder essa pergunta. O tirano, nos textos do século XVII, era definido como o príncipe — ou qualquer um a seu serviço — que sofria do vício da avareza. Não era apenas quem roubava, mas quem colocava o interesse próprio acima do público. Essa era a causa central da tirania.

Os efeitos eram concretos: os bens da república ficavam à disposição de quem não considerava a utilidade dos súditos, enriquecendo-se com o sofrimento dos mais pobres. Os vassalos americanos já pediam, naquele período, que o governo não fosse “tirania, interesses e aumento da fazenda própria.”

Essa metáfora atravessou séculos e ainda molda a forma como o eleitor enxerga a política, como uma questão de caráter antes de ser uma questão de lei.

Fontes principais:  ROMEIRO, Adriana. Ladrões da República. Editora Zahar, 2023. ROMEIRO, Adriana. A corrupção na Época Moderna. Revista Tempo, 2015.

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