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Enquanto a China planeja o futuro de sua força de trabalho, o Brasil forma para o desemprego

Entre 2019 e 2024, a China extinguiu ou suspendeu mais de 5.000 cursos de graduação em todo o país. A medida não é aleatória: trata-se de uma reestruturação estratégica do ensino superior para alinhar a formação acadêmica às demandas reais do mercado de trabalho e às prioridades tecnológicas do governo central.

Os cortes atingem principalmente áreas consideradas saturadas ou defasadas. Cursos de Gestão de Informação, Design de Moda, línguas estrangeiras como inglês e japonês e disciplinas tradicionais de jornalismo estão entre os mais afetados. Universidades de elite, como a Universidade de Ciência e Tecnologia da China (USTC) e a Universidade de Comunicação da China (CUC), já integraram matérias de fotografia e jornalismo a novos formatos focados em mídia digital e inteligência artificial.

No lugar dessas carreiras, o governo chinês acelera a abertura de vagas em Inteligência Artificial, Robótica, Manufatura Inteligente e Engenharias avançadas. A justificativa é direta: o desemprego jovem na China gira em torno de 14%, segundo o Ministério da Educação chinês, e a expansão da IA ameaça tornar obsoletas diversas profissões tradicionais.

No Brasil, o problema existe, mas a resposta é outra. O Ministério da Educação (MEC) não fecha cursos por decreto, mas endureceu as regras para o Ensino a Distância em 2025: nenhuma graduação pode ser 100% online, e cursos como Medicina, Direito e Psicologia estão proibidos na modalidade EAD. A medida combate a precarização, mas não enfrenta diretamente o descompasso entre diploma e mercado.

E esse descompasso é profundo. Dados do IBGE apontam que aproximadamente 4 milhões de brasileiros com ensino superior ocupam cargos que não exigem essa qualificação. No segundo trimestre de 2024, quase 80% dos diplomados que conseguiram recolocação aceitaram vagas abaixo de sua formação original. Entre os motoristas de aplicativo, cerca de 45% possuem ensino superior completo ou incompleto, com destaque para bacharéis em Direito, Administração e Engenharia.

Segundo nota técnica do IBGE, o número de trabalhadores em plataformas digitais chegou a 1,7 milhão em 2024, crescimento de 25% em dois anos. Desses, 71,1% operam na informalidade.

O diploma brasileiro ainda aumenta as chances de emprego em 75% e eleva a renda média em até 126% em relação a não escolarizados. Esses indicadores provêm de estudos do Ibre/FGV, monitoramentos da ABMES e relatórios Education at a Glance da OCDE, com base em levantamentos do IBGE. Os dados mostram que trabalhadores sem curso superior recebem em média R$ 7.489 mensais, enquanto a taxa de desemprego entre graduados permanece em torno de 3%. Porém, a renda média de quem tem curso superior caiu cerca de 12% nos últimos anos pela falta de vagas qualificadas para absorver todos os formandos.

Enquanto países como a China planejam com urgência o futuro profissional de sua população, o Brasil segue preso ao presente, tentando remediar o que já foi mal formado, sem um plano claro para o que ainda está por vir.

Fontes: Ministério da Educação da China; IBGE (Nota Técnica sobre Trabalho em Plataformas Digitais, 2024); MEC/Portal do MEC (marco regulatório EAD 2025); CONFEA (regulamentação de cursos de Engenharia); Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET).

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