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Marco histórico: Sarah Mullally assume liderança da Igreja Anglicana e rompe tradição secular

Em cerimônia histórica, enfermeira ordenada bispa quebra barreira de 14 séculos na liderança anglicana

Na quarta-feira (25), a Catedral de Cantuária foi palco de um momento sem precedentes na história cristã britânica: Sarah Mullally assumiu como a primeira mulher a ocupar o cargo de Arcebispa de Cantuária, tornando-se a líder espiritual de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo. A cerimônia reuniu cerca de 2 mil convidados, entre eles o príncipe William, Kate Middleton e o primeiro-ministro Keir Starmer. Aos 63 anos, Mullally tomou assento na histórica cadeira de Santo Agostinho, símbolo da autoridade máxima da Comunhão Anglicana — estrutura cujas raízes remontam ao ano 597, quando o papa enviou Santo Agostinho à Grã-Bretanha para converter a população ao cristianismo.

A trajetória de Sarah Mullally é marcada pelo pioneirismo muito antes do sacerdócio. Nascida em 1962 em Woking, Inglaterra, ela construiu carreira na área da saúde. Em 1999, aos 37 anos, tornou-se a mais jovem diretora de enfermagem do governo inglês e, em 2005, recebeu o título de Dame Commander of the British Empire por sua contribuição à enfermagem. Ordenada em 2001, chegou ao episcopado em 2018 como a primeira bispa de Londres — um ensaio para o posto histórico que agora ocupa.

Mullally assume no lugar de Justin Welby, que renunciou após ser responsabilizado pela forma como conduziu um escândalo de agressões físicas e sexuais envolvendo um abusador de menores, com acusações de que a instituição havia encoberto o caso. Em seu discurso de posse, sentada no trono de pedra do século XIII, ela pediu desculpas pela dor sentida por aqueles prejudicados pelas ações, omissões ou falhas de membros das comunidades cristãs — um gesto que sinalizou o tom de sua liderança: transparência e responsabilização.

A nomeação, porém, não é unânime. A Gafcon, organização de anglicanos conservadores, considera a escolha controversa, argumentando que a maioria da Comunhão ainda acredita que apenas homens devem ser bispos. Com 100 milhões de membros em 165 países, a Comunhão Anglicana está dividida também sobre o tratamento de pessoas LGBTQ — tensões que Mullally terá de enfrentar desde o primeiro dia.

O feito reflete uma tendência ainda lenta de abertura das lideranças religiosas às mulheres. No protestantismo, diversas denominações já as ordenam há décadas. No Vaticano, o Papa Francisco tem ampliado espaços femininos em instâncias de decisão, mas o sacerdócio católico segue vedado. Islamismo ortodoxo, Judaísmo Ortodoxo e Igreja Ortodoxa permanecem fechados à liderança feminina formal. Ao assumir um cargo com 14 séculos de história exclusivamente masculina, Sarah Mullally não apenas quebra um teto de vidro — ela se coloca no centro de um debate que pode redefinir o papel das mulheres nas grandes tradições religiosas do mundo.

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