Você já ouviu falar na Igreja Positivista do Brasil?

Fachada neoclássica do Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil, no bairro da Glória, Rio de Janeiro

Na fachada de um prédio no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, está gravada a frase que inspirou o lema da nossa bandeira. O prédio está interditado, quase ninguém sabe que ele existe, e o que acontece dentro dele é uma história que poucas escolas contam.

O que é a Igreja Positivista do Brasil

A Igreja Positivista do Brasil foi fundada em 11 de maio de 1881 por Miguel Lemos, no Centro do Rio de Janeiro. Entre seus primeiros membros estavam o próprio Lemos, Raimundo Teixeira Mendes e Benjamin Constant.

Ela não era uma religião no sentido convencional. Era uma instituição que acreditava que a ciência e a razão deveriam ocupar o lugar que a Igreja Católica ocupava na organização moral da sociedade. Seus membros não adoravam Deus, mas a própria Humanidade como entidade coletiva, seguindo a doutrina do filósofo francês Auguste Comte, fundador do positivismo.

Pode parecer estranho, mas era exatamente isso: uma religião sem Deus, com santos que eram grandes cientistas e pensadores, um calendário próprio com 13 meses e rituais inspirados no catolicismo, que Comte admirava como estrutura mas rejeitava como crença.

Como ela ajudou a fundar o Brasil republicano

Aqui está a parte que a maioria das pessoas não conhece.

As ideias positivistas serviram de base ideológica para a República Brasileira e ajudaram a pautar reformas sociais fundamentais no país, como a abolição da escravidão, a separação da Igreja do Estado, o casamento civil e as primeiras leis trabalhistas.

Quando a República foi proclamada em 15 de novembro de 1889, dois membros do Governo Provisório eram positivistas: Benjamin Constant, que se tornou Ministro da Guerra e depois Ministro da Instrução Pública, e Demétrio Ribeiro, que propôs a lei de separação entre Igreja e Estado. Nos dias seguintes, Teixeira Mendes apresentou o projeto da nova bandeira nacional com o lema positivista “Ordem e Progresso”, aprovado por decreto em 19 de novembro de 1889.

A frase completa de Comte era: “O amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim.” O Brasil resumiu e estampou na bandeira.

O Templo da Humanidade

O Templo da Humanidade, inaugurado em 1º de janeiro de 1897 na Rua Benjamin Constant, na Glória, foi o primeiro edifício construído no mundo especificamente para difundir a doutrina positivista. Sua fachada foi inspirada no Panthéon de Paris. No altar, uma figura feminina representando a Humanidade. No pórtico, a frase: “Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos.”

No seu auge, nos primeiros anos após a Proclamação, os cultos lotavam o Templo, que comporta mais de 200 pessoas, e os membros eram figuras influentes do novo regime. Lá foi celebrado o casamento do Marechal Cândido Rondon, o mesmo que criou o sistema de proteção aos povos indígenas que deu origem à atual Funai.

O que a Igreja defendia além da política

A Igreja Positivista foi uma das primeiras instituições brasileiras a se preocupar formalmente com causas que só décadas depois viraram agenda pública.

Seus seguidores defendiam a situação dos indígenas, que consideravam um grupo injustiçado no Brasil. Eram também frontalmente contrários a guerras e regimes militares, e não apoiavam movimentos revolucionários, por acreditarem que a transformação social deveria ser gradual e pacífica.

Defendiam ainda a valorização da mulher, melhores condições para negros e uma política de harmonia com os países vizinhos, causas que só ganharam força no debate público muito mais tarde.

A influência que persiste sem ser nomeada

O positivismo não ficou só nos livros. Ele entrou nas instituições.

O historiador José Murilo de Carvalho, em Cidadania no Brasil: o longo caminho, é direto: a Era Vargas foi diretamente influenciada pelo positivismo de Comte, que defendia a incorporação do proletariado à sociedade por meio de proteção aos trabalhadores e suas famílias.

A cadeia é clara para os historiadores: Comte inspirou Júlio de Castilhos, que construiu no Rio Grande do Sul um modelo de Estado forte e centralizador. Quando Getúlio Vargas assumiu o governo gaúcho em 1928, esse modelo evoluiu para um intervencionismo estatal mais forte na economia e no mercado de trabalho, chegando ao plano nacional em 1930.

Toda vez que alguém defende que um ministério deve ser comandado por um “técnico” em vez de um “político”, está repetindo, sem saber, um princípio central de Comte.

O que resta do Templo hoje

A entidade jurídica da Igreja existe. O acervo existe. O prédio, não está aberto.

O telhado desabou em 2009, durante uma chuva forte. Uma lona de vinil cobriu a estrutura por anos, sem impedir a degradação interna: afrescos, mobiliário histórico, documentos raros. A bandeira original que serviu de modelo para as primeiras réplicas do país foi roubada do acervo em 2010 e nunca recuperada.

Em dezembro de 2024, técnicos do IPHAN atestaram que o Templo está impossibilitado de receber qualquer tipo de visitação ou pesquisa. A boa notícia chegou dias depois: em 29 de novembro de 2024, o IPHAN aprovou o projeto executivo de restauração, que prevê a transformação do local em centro cultural, espaço de pesquisa e museu, com acessibilidade universal.

Quando as obras começam, ainda não há data confirmada. Enquanto isso, cerca de 15 mil livros, obras de arte e documentos históricos aguardam dentro de um prédio tombado em três esferas, nas municipais, estadual e federal, que ajudou a desenhar o país, e que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar.


Fontes:

  • Igreja Positivista do Brasil: templodahumanidade.org.br
  • IPHAN — tombamento e aprovação do projeto de restauração (2024): portal.iphan.gov.br
  • IPHAN/RJ — comunicado de interdição do Templo da Humanidade, dezembro de 2024
  • Brasiliana Fotográfica, Biblioteca Nacional: brasilianafotografica.bn.gov.br
  • José Murilo de Carvalho, Cidadania no Brasil: o longo caminho (Civilização Brasileira, 2001)
  • Revista Locus (UFJF) — artigo Comtismo, castilhismo e varguismo: periodicos.ufjf.br
  • Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889 — aprovação da Bandeira Nacional
Marcado:

Um comentário

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *