Mesmo recebendo R$ 142 bilhões por ano, as Forças Armadas vivem o pior momento de credibilidade de sua história recente. Uma pesquisa de março de 2026 mostra que 60% dos brasileiros não confiam na instituição, o pior índice já registrado.
Quanto custa para o brasileiro manter as Forças Armadas?
O Governo Federal aprovou R$ 142 bilhões para o Ministério da Defesa no Orçamento Geral da União de 2026, um aumento de R$ 9 bilhões em relação aos R$ 133,6 bilhões de 2025. O valor coloca a Defesa como o quarto maior orçamento entre todos os ministérios do Executivo.
Para ter noção da escala: o orçamento de 2026 supera, pela primeira vez, a soma dos gastos militares de todos os outros países sul-americanos juntos.
Para onde vai esse dinheiro?
A maior fatia não vai para equipamentos nem para operações. Vai para pessoal. Dados do Portal da Transparência mostram que cerca de 800 mil pessoas recebem algum tipo de remuneração do Ministério da Defesa: 362 mil militares da ativa, 169 mil inativos e 235 mil pensionistas.
Em 2024, o Brasil destinou R$ 77,4 bilhões ao pagamento desses três grupos, o que representa 78% de todo o orçamento da Defesa Nacional.
Aposentados e pensionistas pesam mais do que qualquer outro item. Em 2025, os gastos com militares inativos somaram R$ 31,08 bilhões e as pensões militares alcançaram R$ 25,01 bilhões. Juntos, esses dois itens consumiram R$ 56 bilhões, representando 42% de todo o orçamento do Ministério da Defesa.
O que sobra para modernização e operação é pouco. Apenas R$ 15,2 bilhões ficam disponíveis para investimentos em equipamentos, infraestrutura e tecnologia, cerca de 10% do total. O ministro José Múcio chegou a declarar ao Senado, em setembro de 2025, que as Forças Armadas têm equipamento, mas não têm dinheiro para combustível.
Como o Brasil se compara com os EUA nesse gasto?
A diferença é grande. Enquanto o Brasil destina 78% do orçamento da Defesa para pessoal, nos Estados Unidos esse percentual é de apenas 22%. A folha de pagamento dos militares brasileiros é, proporcionalmente, mais de três vezes maior que a americana.
Outro dado que chama atenção: especialistas indicam que um pensionista militar pode representar um custo até 13 vezes maior que o de um pensionista civil, o que aumenta ainda mais a pressão sobre o orçamento.
O investimento alto resolveu o problema de imagem?
Não. Ao contrário. As Forças Armadas registram um dos piores níveis de confiança de sua história recente. O dado consolida um processo de desgaste que se intensificou nos últimos anos e reposiciona a instituição no imaginário público brasileiro.
Pesquisa da AtlasIntel, realizada com 2.090 brasileiros entre 16 e 19 de março de 2026, apontou que as Forças Armadas têm 27% de confiança e 60% de desconfiança entre a população. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Durante décadas, as Forças Armadas ocuparam posição destacada em rankings de credibilidade. Mesmo após a redemocratização, preservaram uma imagem relativamente positiva, associada à disciplina e à ordem. O levantamento sugere que esse capital simbólico vem se erodindo.
Quem lidera a confiança dos brasileiros?
No mesmo levantamento, a Polícia Federal lidera a confiança com 56% de avaliações positivas. Na outra ponta, o Congresso Nacional registrou o pior resultado, com apenas 9% de confiança. As Forças Armadas ficam entre as duas, mas muito mais próximas do fundo.
Por que a credibilidade caiu tanto?
Pesquisadores apontam que o desgaste é resultado de um acúmulo de exposições negativas ao longo dos últimos anos, especialmente a partir da aproximação com o governo Bolsonaro. As tentativas de distanciamento entre a instituição e o governo após esse período não se sustentaram na prática.
Especialistas também apontam que há uma demanda constante por mais orçamento, mas sem comprometimento com o perfil desse gasto ou com investimento efetivo na melhoria do sistema de defesa brasileiro.
O retrato final é contraditório: pelo Global Firepower Index 2026, o Brasil ocupa a 11ª posição entre 145 países, sendo a maior potência militar do Hemisfério Sul. No papel, uma potência. Na percepção dos brasileiros que pagam a conta, uma instituição em crise.
Fontes:
- Portal da Transparência do Governo Federal: portaldatransparencia.gov.br
- Orçamento Geral da União 2026 aprovado pelo Congresso Nacional
- Brasil de Fato, janeiro de 2026 (dados do Portal da Transparência sobre inativos e pensões em 2025)
- Pesquisa AtlasIntel/Estadão, realizada entre 16 e 19 de março de 2026 (2.090 entrevistados, margem de erro de 2 p.p., 95% de confiança)
- Congressional Budget Office (CBO), Atlas of Military Compensation 2024: cbo.gov
- Global Firepower Index 2026: globalfirepower.com
- Lei Complementar nº 221/2025 (projetos estratégicos de defesa fora do arcabouço fiscal)








