China abre mercado para a África e aperta o cerco ao agro brasileiro

Produtor rural brasileiro em lavoura representando o impacto da política comercial da China sobre o agronegócio do Brasil

A China zerou as tarifas de importação para 53 países africanos desde 1º de maio de 2026, criando concorrência para o agronegócio brasileiro num momento em que Pequim já limita e taxa as exportações de carne bovina do Brasil.

O que a China fez?

A China eliminou todos os impostos de importação sobre produtos de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. A medida é unilateral: os africanos não precisam retribuir com o mesmo benefício.

Produtos como cacau, café, abacate, cítricos e vinho tinto, que antes pagavam entre 8% e 30% de tarifa, agora entram no mercado chinês com custo zero, desde que cumpram os requisitos de origem, inspeção e quarentena.

O Brasil não está nessa lista e continua pagando as tarifas padrão no mesmo mercado.

Os produtores brasileiros de café, cacau e frutas serão prejudicados?

O impacto existe, mas varia por produto. No café, a tarifa que o Quênia pagava para entrar na China chegava a 30% e agora vai a zero, mas o Brasil já exportava pouco para esse mercado. No cacau, o risco maior está no mercado interno brasileiro, pressionado pelo produto africano mais barato. Para abacate, cítricos e vinho, a presença brasileira na China ainda é marginal.

A tarifa zero não é uma catástrofe imediata, mas cria uma barreira estrutural: qualquer tentativa de crescer nesses produtos no mercado chinês vai encontrar um concorrente africano com vantagem de custo já garantida.

O que a China já fez contra a carne brasileira?

A China também impôs limites rígidos à carne bovina do Brasil. A cota para as exportações brasileiras é de 1,106 milhão de toneladas por ano em 2026. Volumes acima desse teto passam a ser taxados em 55%, o que praticamente inviabiliza a exportação fora da cota.

O problema é que o Brasil já exportava bem acima disso. Em 2025, o Brasil ultrapassou 1,6 milhão de toneladas enviadas ao mercado chinês, responsável por 55% das exportações de carne bovina in natura, gerando cerca de US$ 9 bilhões em receita.

A Abrafrigo estima que a medida pode representar uma perda de até US$ 3 bilhões em receita para o Brasil em 2026, com efeitos sobre renda, emprego e investimentos no campo.

A cota vai acabar antes do previsto?

Esse é o maior risco do momento. Até fevereiro de 2026, o Brasil já havia usado 33,6% da cota anual. Com o ritmo atual de embarques, analistas estimam que o limite será atingido entre junho e julho.

Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, resume o problema: “Enquanto não tiver uma gestão de cotas, vamos seguir reféns dessa situação: corrida muito acelerada pela exportação, seguida de um vazio de vendas para esse que é o nosso principal mercado.”

Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, confirma o prazo: “Dado o ritmo atual de exportações, de aproximadamente 110 mil toneladas embarcadas para a China ao mês, atingiremos a cota entre junho e julho.”

Isso vai encarecer a carne no Brasil?

A resposta dos especialistas é sim. Quando a cota se esgotar, os frigoríficos tendem a reduzir o ritmo de abate para evitar excesso de oferta. Menos abate significa menos oferta interna, mantendo os preços altos.

O próprio Ministério da Fazenda projeta aceleração da inflação de alimentos em 2026, citando a menor oferta de carne bovina como um dos fatores. A carne bovina, símbolo do debate eleitoral de 2022, volta ao centro da discussão em ano de eleições e Copa do Mundo.

Como o governo reagiu?

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, minimizou a situação: “De modo geral, não é algo preocupante. O Brasil está relativamente preparado para intempéries comerciais. Vamos começar uma fase de negociação.”

Fontes do setor afirmam, porém, que as negociações para ampliar ou renegociar a cota não avançaram e que o governo optou por não intervir no fluxo de embarques mesmo diante do risco crescente.

A Abrafrigo defende que uma atuação diplomática firme é urgente, com foco na expansão de novos mercados. Iglesias aponta o caminho: “Será necessário buscar compensações em outros destinos, como Estados Unidos, União Europeia e Japão, para evitar impactos mais profundos.”


Fontes:

  • Ministério do Comércio da China (MOFCOM). Medidas de salvaguarda sobre importações de carne bovina. Em vigor desde 01/01/2026, com validade até 31/12/2028.
  • Comissão de Tarifas Aduaneiras do Conselho de Estado da China. Expansão da política de tarifa zero para 53 países africanos. Divulgado em 28/04/2026.
  • Administração Geral das Alfândegas da China (GACC). Dados de importação de carne bovina do Brasil, janeiro-fevereiro de 2026.
  • Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Nota sobre impacto das salvaguardas chinesas. 31/12/2025.
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