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Violão na mão era coisa de malandro no Brasil

Hoje símbolo da música brasileira e presença garantida em palcos, igrejas e universidades, o violão já foi tratado como instrumento suspeito no Brasil. Houve um tempo em que carregá-lo pelas ruas era motivo suficiente para abordagem policial, constrangimento e até prisão. Não por acaso: sua história no país mistura preconceito social, repressão cultural e controle do espaço público.

No início do século XX, o violão foi severamente marginalizado, especialmente nos grandes centros urbanos. Embora nunca tenha existido uma lei que proibisse o instrumento, ele era frequentemente usado como pretexto para enquadrar pessoas na chamada “lei da vadiagem”. Bastava estar com um violão nas costas e não conseguir comprovar vínculo formal de trabalho para ser levado à delegacia.

Por que o violão foi perseguido?

A perseguição não era ao objeto, mas ao que ele simbolizava.

O violão era associado à boemia, à seresta, aos músicos de rua e aos chamados “malandros”. Em uma sociedade que buscava se modernizar à força, copiando padrões europeus e higienizando os centros urbanos, tudo o que remetia à informalidade era visto como ameaça à ordem.

Havia também um componente racial e social claro. O instrumento estava profundamente ligado ao samba e ao choro — gêneros populares, urbanos e de matriz afro-brasileira. Esses ritmos, hoje exaltados, eram tratados como expressão de desordem e alvo constante da repressão policial.

O violão, portanto, virou um marcador social. A polícia abordava quem o carregava, exigia carteira de trabalho assinada ou “prova de ocupação honesta”. Quem não tinha, era detido. Simples assim.

Da catequese ao povo

O paradoxo é que o violão chegou ao Brasil com status respeitável. Trazido pelos colonizadores portugueses no século XVI, ele evoluiu a partir da viola de mão. Os jesuítas foram fundamentais em sua difusão inicial, utilizando o instrumento como ferramenta de catequese para atrair e converter indígenas por meio da música.

Com o tempo, a viola se interiorizou, dando origem à viola caipira, enquanto o violão seguiu um caminho urbano. A partir do século XIX, especialmente após a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, o violão consolidou-se com o formato e as seis cordas que conhecemos hoje.

Enquanto a viola permaneceu ligada ao campo e à tradição oral, o violão tornou-se o instrumento urbano por excelência. No final do Império, passou a acompanhar modinhas e lundus, tornando-se a base do choro e, depois, do samba.

O instrumento que começou religioso e aristocrático acabou virando a voz das classes populares. E foi exatamente por isso que passou a incomodar.

Nem a igreja aceitava

A rejeição não se limitou ao Estado. Até meados da década de 1950, o violão era proibido em muitas igrejas. Considerado “mundano”, boêmio e associado à vida noturna, não era visto como instrumento digno do culto religioso. Curiosamente, hoje é um dos instrumentos mais usados em celebrações cristãs no país.

Da marginalização ao símbolo nacional

A mudança de status começou com o reconhecimento técnico e artístico do instrumento. Músicos como Quincas Laranjeira ajudaram a elevá-lo ao ambiente acadêmico. Mais tarde, a Bossa Nova fez o que a polícia jamais conseguiu impedir: colocou o violão no centro da identidade cultural brasileira, respeitado dentro e fora do país.

Hoje, choro e samba — gêneros que já levaram músicos à cadeia — são reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil.

Uma história que vem de longe

O violão é resultado de uma longa evolução histórica. Seus ancestrais remontam à Antiguidade, passando por instrumentos como a cítara romana e o alaúde árabe, introduzido na Península Ibérica pelos mouros no século VIII.

Na Espanha medieval, surgiram a guitarra latina e a guitarra mourisca. No século XV, a vihuela — muito semelhante ao violão atual — tornou-se o instrumento da nobreza. Entre os séculos XVI e XVIII, o instrumento evoluiu até chegar ao modelo de seis cordas simples.

O violão moderno foi definido no século XIX pelo luthier espanhol Antonio de Torres Jurado, que estabeleceu o design usado até hoje.

Curiosidade linguística: enquanto no resto do mundo ele é chamado de “guitarra”, no Brasil o nome “violão” surgiu como um aumentativo de “viola”, para diferenciar os instrumentos maiores trazidos pelos portugueses.

é isso aí….

A história do violão no Brasil é um retrato fiel do país: um objeto que começou elitizado, foi apropriado pelo povo, criminalizado pelo Estado e, depois de décadas, reconhecido como símbolo nacional. Ontem, motivo de prisão. Hoje, patrimônio cultural. A música venceu — mas não sem resistência.

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