Carregar um violão pelas ruas do Brasil, no início do século XX, era pretexto suficiente para a polícia deter qualquer pessoa com base na chamada lei da vadiagem.
Por que o violão virou alvo da repressão policial?
A perseguição não era ao instrumento em si, mas ao que ele representava. O violão era associado à boemia, à seresta, aos músicos de rua e à figura do “malandro” — perfil que o Estado brasileiro republicano buscava eliminar dos centros urbanos em nome da modernização.
Policiais tinham ordens de dispersar grupos reunidos para tocar música, especialmente quando envolviam o violão, instrumento associado à vadiagem. Decretos municipais e posturas urbanas chegaram a coibir a execução de músicas em horários considerados impróprios, numa tentativa institucional de silenciar a cultura popular.
Havia também um componente racial e de classe evidente. O violão estava diretamente ligado ao samba e ao choro — gêneros de matriz afro-brasileira tratados como expressão de desordem. Sob a justificativa da criminalização da vadiagem, iniciou-se um processo de criminalização do samba, que surge no Brasil a partir de uma mescla dos ritmos musicais africanos e acabou sendo introduzido na sociedade urbana, especialmente na cidade do Rio de Janeiro.
O que era a lei da vadiagem?
Nunca existiu uma lei que proibisse o violão expressamente. O que havia era o uso do instrumento como pretexto para enquadrar pessoas na legislação de vadiagem. O decreto-lei 3.688/41, que previa sanções pelas contravenções, foi sancionado em 1941, quando o Brasil estava imerso no período de Estado Novo liderado por Getúlio Vargas. O dispositivo considerava infração “entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência”.
Na prática, bastava estar com um violão nas costas e não apresentar carteira de trabalho assinada para ser conduzido à delegacia.
Entre 1892 e 1916 em São Paulo, mais de 80% das detenções foram feitas por vadiagem. No Rio de Janeiro, balanço das estatísticas policiais da cidade em 1975 mostra que “vadiagem” era o segundo crime mais “praticado”.
Da catequese jesuítica à marginalização urbana
O paradoxo é que o violão chegou ao Brasil com status respeitável. Trazido pelos colonizadores portugueses no século XVI, evoluiu a partir da viola de mão. Os jesuítas foram fundamentais em sua difusão inicial, usando-o como ferramenta de catequese junto aos povos indígenas.
Com o tempo, enquanto a viola se interiorizou e deu origem à viola caipira, o violão seguiu o caminho urbano. A partir do século XIX, especialmente após a chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, consolidou-se no formato de seis cordas que conhecemos hoje, tornando-se a base do choro e, posteriormente, do samba.
O instrumento que começou religioso e associado às elites acabou se tornando a voz das classes populares. E foi exatamente por isso que passou a incomodar.
Nem a Igreja aceitava o violão
A rejeição não se limitou ao Estado. Até meados dos anos 1950, o violão era proibido em muitas igrejas por ser considerado mundano e boêmio. Curiosamente, hoje é um dos instrumentos mais presentes em celebrações cristãs no país.
Como o violão passou de suspeito a símbolo nacional
A virada começou com o reconhecimento técnico e acadêmico do instrumento. Músicos como Quincas Laranjeira ajudaram a levá-lo ao ambiente universitário. Mais tarde, a Bossa Nova fez o que a repressão policial não conseguiu impedir: colocou o violão no centro da identidade cultural brasileira.
O choro foi declarado Patrimônio Cultural do Brasil em 29 de fevereiro de 2024, por unanimidade, pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, presidido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Agência Brasil O samba já havia sido reconhecido anteriormente pela mesma instituição. Ambos os gêneros, que levaram músicos à cadeia no passado, hoje são referências oficiais da cultura nacional.
Uma história que vem da Antiguidade
O violão é fruto de uma longa cadeia histórica. Seus ancestrais remontam a instrumentos como a cítara romana e o alaúde árabe, introduzido na Península Ibérica pelos mouros no século VIII. Na Espanha medieval surgiram a guitarra latina e a guitarra mourisca. No século XV, a vihuela tornou-se instrumento da nobreza ibérica.
O modelo moderno foi definido no século XIX pelo luthier espanhol Antonio de Torres Jurado, que estabeleceu o design utilizado até hoje.
Vale uma nota linguística: enquanto no restante do mundo o instrumento é chamado de “guitarra”, no Brasil o nome “violão” surgiu como aumentativo de “viola”, para diferenciar os instrumentos de maior porte trazidos pelos portugueses.
O que a história do violão revela sobre o Brasil
A trajetória do violão no Brasil é um retrato preciso do país: um objeto que começou elitizado, foi apropriado pelo povo, criminalizado pelo Estado e, depois de décadas de resistência, reconhecido como símbolo nacional. Ontem, motivo de prisão. Hoje, patrimônio cultural. A música resistiu — mas não sem custo.
Fontes:
- Agência Brasil / EBC — Choro é declarado Patrimônio Cultural do Brasil (29/02/2024): agenciabrasil.ebc.com.br
- IPHAN — Choro é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil (gov.br): gov.br/iphan
- Rede Justiça Criminal — Leis penais e criminalização da população negra: redejusticacriminal.org
- Conjur — Entre vadiagem e batuque: política criminal, racismo cultural e repressão penal do samba (03/02/2026): conjur.com.br
- Migalhas — Mendigar deixou de ser contravenção penal há apenas dez anos: migalhas.com.br
- UFMG / Permusi — Prando, Flávia. O violão e a ordem pública: censura e controle social (São Paulo 1890–1932): periodicos.ufmg.br
- Câmara dos Deputados — Proposta retira vadiagem da Lei de Contravenções Penais: camara.leg.br









