O risco de uma guerra civil na Venezuela é alto em janeiro de 2026. A mudança brusca no poder, provocada pela ação militar dos Estados Unidos, abriu um cenário clássico de instabilidade — já visto em outros países após intervenções externas. O roteiro é conhecido: queda do líder, vácuo de poder, fragmentação das forças armadas e conflito prolongado.
Em 3 de janeiro de 2026, os EUA lançaram a Operação Absolute Resolve, com ataques aéreos contra infraestruturas militares em Caracas e outras regiões. A ofensiva resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa. A deposição forçada encerrou um ciclo político, mas não produziu uma transição clara. Ao contrário: deslocou o centro do poder para as Forças Armadas e para grupos armados ideologizados, elevando o risco de confrontos internos.
O primeiro fator crítico é o vácuo de poder. A ausência de um acordo de transição transformou a sucessão em disputa. A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), com algo entre 125 mil e 150 mil militares ativos, tornou-se a peça central. Além do poder de fogo, a cúpula militar controla setores estratégicos da economia, como a PDVSA, mineração e a distribuição de alimentos. Após a captura de Maduro, a coesão da FANB passou a ser testada: enquanto o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, mantém influência e discurso de resistência, há relatos de generais buscando acordos com Washington em troca de garantias e imunidade.
O segundo fator é a resistência interna armada. Mesmo com Maduro fora de cena, figuras do chavismo, como Delcy Rodríguez, contestam a legitimidade da ação americana e prometem defesa do país. A Venezuela não está dividida apenas entre governo e oposição: está fragmentada entre forças formais e estruturas paramilitares. A Milícia Nacional Bolivariana, criada por Hugo Chávez, foi apresentada pelo regime como um “exército político” com milhões de membros — números contestados, mas suficientes para indicar capilaridade territorial. Somam-se a ela os coletivos, grupos menores, violentos e enraizados em áreas urbanas, usados historicamente para intimidação e controle social.
Essa combinação é explosiva. Milícias têm pouco valor em combate convencional, mas são altamente eficazes em guerrilha e resistência urbana, capazes de prolongar conflitos por anos. O risco aumenta com a presença de outros atores armados, como o ELN colombiano e facções do narcotráfico, que disputam territórios e rotas.
Há ainda o risco de internacionalização do conflito. Aliados do regime, como Rússia e China, podem reagir politicamente ou por meios indiretos, transformando a crise em uma guerra por procuração dentro do território venezuelano.
A história recente oferece alertas claros. No Iraque, a derrubada de Saddam Hussein pelos EUA, em 2003, desmantelou o Estado e abriu caminho para anos de guerra civil, milícias sectárias e terrorismo. Na Líbia, a queda de Muammar Gaddafi resultou em fragmentação total do poder e conflito permanente. No Afeganistão, duas décadas de intervenção terminaram sem estabilidade duradoura. O padrão se repete: remover o topo é fácil; reconstruir o Estado, não.
No comando atual, a Suprema Corte venezuelana determinou que Delcy Rodríguez assuma a presidência com base no Artigo 233 da Constituição. Ao seu redor orbitam nomes-chave: Domingo Hernández Lárez, no comando operacional da FANB; Javier José Marcano Tábata, à frente da Milícia; e Diosdado Cabello, elo entre militares e coletivos. O desafio é manter a união mínima entre esses blocos. Se falhar, o país entra em rota de colisão.
O alerta regional já foi acionado. Brasil e países vizinhos temem um novo fluxo migratório e a desestabilização das fronteiras. O diagnóstico é direto: sem uma transição clara e legítima, a Venezuela corre sério risco de seguir o caminho de outros países onde a intervenção externa não trouxe paz, mas caos.










