O encontro entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, realizado em Mar-a-Lago, foi recebido em Israel não apenas como um gesto de política externa, mas como um episódio de forte impacto na política interna do país. As declarações do ex-presidente americano, que misturaram apoio pessoal ao premiê israelense, ameaças ao Irã e o anúncio de uma honraria inédita, repercutiram de forma imediata no debate institucional e no já acirrado ambiente político israelense.
Trump afirmou publicamente que um eventual perdão a Benjamin Netanyahu estaria “a caminho”, elogiando o primeiro-ministro como um “herói de guerra”, mesmo com o processo por corrupção ainda em andamento. A reação foi rápida: o gabinete do presidente de Israel, Isaac Herzog, negou qualquer discussão ou promessa de perdão, ressaltando que a legislação prevê trâmites específicos e que não há decisões antecipadas. O episódio expôs um ponto sensível do sistema político israelense: a relação entre Judiciário e Executivo. Para juristas, oposição e parte da imprensa, a fala de Trump foi interpretada como pressão estrangeira sobre instituições que prezam pela autonomia e pelo devido processo legal.
Entre os aliados de Netanyahu, porém, a leitura foi distinta. O apoio explícito de Trump foi usado como sinal de legitimidade internacional e reforço simbólico de liderança. Mesmo sem efeito jurídico concreto, o premiê voltou a ser apresentado como um ator central no tabuleiro geopolítico, com acesso direto a um possível futuro presidente dos Estados Unidos. Esse capital político, ainda que simbólico, tem peso em um país marcado por disputas internas constantes.
Outro ponto de controvérsia foi o anúncio de que Trump receberá o Prêmio Israel, a maior honraria civil do país, pela primeira vez concedida a um não israelense. Para a direita, trata-se de reconhecimento por decisões históricas, como o fortalecimento da aliança bilateral e os Acordos de Abraão. Já setores do centro e da esquerda criticaram a politização de um símbolo nacional, argumentando que a premiação a um líder estrangeiro polarizador reflete interesses políticos do governo.
No campo da segurança, as ameaças de Trump ao Irã encontraram menos resistência. Há consenso em Israel de que Teerã representa uma ameaça existencial. Ainda assim, especialistas alertaram para os riscos de uma retórica agressiva sem coordenação formal e planejamento estratégico.
A oposição, por sua vez, acusou Netanyahu de usar o apoio externo como forma de blindagem política, desviando o foco dos processos judiciais e reforçando a narrativa de perseguição. No balanço geral, o episódio foi visto em Israel menos como diplomacia e mais como mais um capítulo da polarização nacional, onde tribunal, poder e sucessão pesaram mais do que gestos protocolares.







