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O tesouro que o Brasil deixa escapar: por que nossas terras raras enriquecem o estrangeiro

O Brasil guarda em seu subsolo uma das maiores riquezas estratégicas do século XXI — e ainda não sabe muito bem o que fazer com ela. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, estimada em cerca de 22 milhões de toneladas, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), mas quem está de fato lucrando com isso são empresas dos Estados Unidos, Canadá, Chile e Austrália.

Mas afinal, o que são terras raras? Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e ópticas únicas, usados em praticamente tudo que move o mundo moderno: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones, sistemas de mísseis, satélites e máquinas de ressonância magnética. O nome “raro” não vem da escassez na natureza, mas da enorme dificuldade técnica e do alto custo de extração e separação desses minerais.

Globalmente, a China domina o setor — tanto em reservas quanto em capacidade de processamento. O Brasil aparece em segundo lugar em reservas, com jazidas concentradas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Bahia. Mas a produção industrial ainda engatinha e depende fortemente de capital e tecnologia estrangeiros.

A única produtora em escala comercial no Brasil hoje é a Serra Verde, em Minaçu (GO) — controlada pela Denham Capital, fundo de investimentos dos EUA. Outros projetos de grande porte incluem a Aclara Resources (chilena), com o Projeto Carina em Nova Roma (GO); a Appia Rare Earths (canadense), em Iporá (GO); e a Meteoric Resources (australiana), com o projeto Caldeira em Poços de Caldas (MG), considerado um dos depósitos de argila iônica de mais alto teor do mundo.

O problema central não é apenas quem explora, mas o que o Brasil faz — ou deixa de fazer — com o mineral. O país exporta o concentrado bruto, de baixo valor agregado, enquanto China e EUA realizam a separação química e fabricam os produtos finais de altíssimo valor: ímãs, chips e componentes tecnológicos. Depois, o Brasil recompra esses produtos por preços muito superiores. O risco ambiental da extração fica aqui; o lucro industrial, lá fora.

Há movimentação no Congresso para mudar esse quadro. Projetos como o PL 2780/2024 e o PL 4443/2025 buscam classificar as terras raras como minerais estratégicos. Propostas no Senado chegam a exigir que até 80% das terras raras extraídas sejam processadas em solo brasileiro. Em fevereiro de 2026, o PL 542/2026 propôs uma moratória de um ano na exploração até que uma política nacional de soberania seja aprovada.

Um sinal de caminho possível é a parceria da catarinense WEG com a chinesa Shenghe Resources, tentando nacionalizar a produção de ímãs. Enquanto o Brasil não deixar de ser exportador de terra para se tornar fabricante de tecnologia, seguiremos vendendo ouro e comprando joias.


Fontes: Agência Nacional de Mineração (ANM); Código de Mineração (Decreto-Lei nº 227/1967); PL 2780/2024, PL 4443/2025 e PL 542/2026 (Congresso Nacional); dados corporativos de Serra Verde, Aclara Resources, Appia Rare Earths e Meteoric Resources.

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