Deputado é acusado de tentar coagir o Supremo por meio de articulações internacionais. Nenhuma autoridade americana comentou o caso até agora.
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal formou maioria para transformar o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em réu por coação no curso do processo. A denúncia, apresentada pela Procuradoria-Geral da República, sustenta que o parlamentar atuou nos Estados Unidos para pressionar o Supremo em julgamentos envolvendo seu pai, Jair Bolsonaro. A acusação afirma que Eduardo buscou dialogar com congressistas e grupos de lobby americanos para pressionar ministros da Corte, inclusive sugerindo sanções internacionais como a Lei Global Magnitsky.
O relator Alexandre de Moraes votou pelo recebimento da denúncia, apontando indícios de que o deputado tentou interferir na independência do Judiciário brasileiro por meio de articulações externas. Outros ministros da Primeira Turma o acompanharam, formando maioria antes do prazo final. O julgamento é realizado no plenário virtual e se encerra em 25 de novembro, mas mudanças após a formação da maioria são raras. Com o recebimento, Eduardo Bolsonaro passará formalmente à condição de réu, e o processo entra em fase de instrução, com coleta de depoimentos, provas e oitiva de testemunhas.
A acusação é considerada grave porque envolve a tentativa de influenciar o funcionamento de um tribunal supremo usando atores estrangeiros. A PGR aponta que as ações visavam criar pressão diplomática e pública sobre ministros do STF, especialmente sobre Moraes, cujo relacionamento com o bolsonarismo é marcado por forte conflito político e institucional.
A questão ganhou repercussão internacional, principalmente por envolver os Estados Unidos. Nos últimos anos, autoridades americanas já haviam se manifestado sobre decisões do STF em casos relacionados a Jair Bolsonaro, e até chegaram a aplicar sanções e revogar vistos de ministros como Alexandre de Moraes. Essas decisões foram justificadas por preocupações com liberdade de expressão e alegações de prisões arbitrárias.
Entretanto, após buscas atualizadas, incluindo pronunciamentos desta sexta-feira, não há nenhuma declaração oficial de autoridades americanas comentando o processo específico contra Eduardo Bolsonaro. O Departamento de Estado não mencionou o caso em suas notas recentes, e a agenda diplomática do dia se concentrou em comércio e clima, sem referências ao cenário político brasileiro. O governo dos Estados Unidos acompanha a crise institucional do Brasil à distância, mas não sinalizou qualquer intenção de agir ou comentar o mérito da denúncia.
O silêncio americano é significativo: indica que, apesar do envolvimento de Eduardo Bolsonaro em articulações nos EUA, o processo permanece estritamente dentro das instituições brasileiras. No campo diplomático, evita-se ampliar tensões com o Judiciário brasileiro ou alimentar a narrativa de interferência externa.
O caso, ainda em estágio inicial, tende a produzir efeitos políticos importantes. Eduardo Bolsonaro é deputado federal por São Paulo e figura central do bolsonarismo nacional. O avanço do processo pode influenciar alianças para 2026 e alterar a dinâmica interna de partidos conservadores, especialmente no Sul, Sudeste e nas cidades do Grande ABC — região onde a direita e a extrema-direita disputam espaço eleitoral e buscam recalibrar sua imagem após decisões recentes do STF envolvendo Jair Bolsonaro.
No cenário nacional, o episódio se soma a uma longa sequência de enfrentamentos entre o bolsonarismo e o Supremo. Ao abrir ação penal contra um deputado federal por suposta coação ao tribunal, o STF reforça sua posição institucional e envia um recado político sobre os limites de atuação de parlamentares e agentes públicos diante de processos judiciais. A decisão tende a intensificar a polarização, afetar estratégias eleitorais e reacender debates sobre independência dos poderes e judicialização da política.
Sem manifestação dos Estados Unidos e com maioria consolidada no STF, o caso Eduardo Bolsonaro promete dominar o noticiário político até o fim de novembro e marcar mais um capítulo de um Brasil que vive sob tensão constante entre Judiciário, Congresso e grupos de influência internacional.










