Veja por que “só não voto no Bolsonaro” é afeto, não política

Uma frase que virou fenômeno social

“Só não voto no Bolsonaro.” A frase circula em conversas familiares, grupos de mensagens e ambientes onde a política nem deveria entrar. Não nasce de uma comparação de governos, nem de análise de dados. Nasce de um processo emocional — e esse processo tem nome e explicação na ciência política.

O que é polarização afetiva e por que ela explica essa rejeição

A polarização afetiva é a aversão ao adversário político construída por sentimentos, não por ideias. Pesquisadores Mario Fuks e Pedro Henrique Marques, do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), identificaram a mudança de comportamento nas eleições de 2018, quando o índice de polarização afetiva superou os registros de todas as disputas anteriores da era PT x PSDB, monitoradas desde 2002.

Em 2022, a eleição mais acirrada desde 1989 registrou índice de polarização afetiva de 6,92. Numa pesquisa Genial/Quaest, 28% dos eleitores de Bolsonaro e 26% dos eleitores de Lula disseram que se sentiriam “infelizes” ou “muito infelizes” se um filho casasse com alguém do grupo político oposto.

A frase como marcador de identidade social

Em ambientes urbanos e universitários, declarar rejeição a Bolsonaro passou a funcionar como sinal de pertencimento a um grupo. O indivíduo não analisa propostas — adota uma posição para não parecer deslocado. É o que a literatura chama de identidade social primária: a filiação política substitui o julgamento racional.

Por que os fatos não mudam essa percepção?

Quando uma narrativa é reforçada de forma contínua — pela imprensa, por artistas, por influenciadores e por ambientes institucionais — ela cria uma ancoragem emocional. A primeira impressão vira filtro permanente. Fatos novos que a contradizem são descartados ou minimizados. O eleitor não rejeita ideias: rejeita a figura.

Esse processo se relaciona com o conceito de Fraude Emocional Eleitoral, desenvolvido pelo publicitário Roberto Falcão e publicado no Via Política News. Segundo Falcão, o eleitor decide por condicionamento emocional, não por análise de dados — e por isso mesmo fatos que poderiam alterar a percepção do ex-presidente não conseguem romper o filtro já formado.

O que os dados mostram sobre o eleitorado real

Uma pesquisa do instituto More in Common em parceria com a Quaest (2025) revelou que a polarização intensa se restringe a 11% do eleitorado5% de Progressistas Militantes e 6% de Patriotas Indignados. Os demais 54% compõem a chamada “maioria silenciosa”, menos engajada e menos polarizada.

Dados da Ipsos apontam que 57% dos brasileiros veem mais malefícios do que benefícios na polarização, 58% acreditam que ela enfraquece a democracia e 72% afirmam se sentir incomodados com ela.

O que a frase revela sobre o eleitor

“Só não voto no Bolsonaro” diz menos sobre o ex-presidente do que sobre quem a pronuncia. Revela cansaço emocional, necessidade de pertencimento e medo de rótulos sociais. É uma frase de identidade — não de análise. E enquanto o voto continuar sendo decidido por sentimento e não por dado, a política brasileira seguirá girando em torno de figuras, não de projetos.

Fontes:

  • Quaest/Genial — Pesquisa de polarização afetiva, junho/2022. In: Biografia do Abismo, Felipe Nunes e Thomas Traumann (HarperCollins Brasil, 2023)
  • More in Common/Quaest — Segmentação do eleitorado brasileiro, 2025: fpabramo.org.br
  • Ipsos — Encruzilhada de 2026: polarização, desconfiança e governabilidade: ipsos.com/pt-br
  • DataSenado — Panorama Político 2024: senado.leg.br
  • Roberto Falcão — Fraude Emocional Eleitoral: viapoliticanews.com
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