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Selic brasileira, o paraíso dos banqueiros que gera pobreza

Com juros entre os mais altos do mundo, o sistema financeiro multiplica lucros enquanto famílias, trabalhadores e pequenos negócios pagam a conta. Entenda por que a Selic virou um mecanismo de concentração de renda no Brasil.

A taxa Selic, criada para controlar a inflação, se transformou no Brasil em muito mais do que um instrumento técnico. Tornou-se o verdadeiro paraíso dos bancos e investidores, mas um pesadelo para quem vive de salário, tenta empreender ou depende de crédito para sobreviver. Enquanto governos se alternam no poder, a lógica permanece idêntica. Juros altos garantem lucros extraordinários ao sistema financeiro e, ao mesmo tempo, empurram milhões de brasileiros para o endividamento e para a pobreza.

A Selic é decidida pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reúne a cada quarenta e cinco dias. Cada ponto percentual estabelecido ali cria um efeito dominó que atravessa toda a economia. Quando a taxa sobe, o crédito encarece, o consumo cai, os investimentos diminuem e o desemprego cresce. É um freio que realmente controla preços, mas que também machuca, e machuca muito.

E quem carrega esse peso é o brasileiro comum. A fatura do cartão vira uma bola de neve, o financiamento da casa perde sentido, o pequeno comerciante não consegue renovar estoque, as empresas seguram contratações, o jovem perde oportunidades de emprego e o país anda para trás. É um empobrecimento lento, constante e silencioso.

Do outro lado estão os grandes ganhadores: os bancos. Com a Selic alta, os juros de empréstimos pessoais, cartões de crédito e cheque especial explodem. E quem cobra tudo isso são eles. Quanto maior a taxa, maior a margem de lucro das instituições financeiras.

Além disso, os bancos compram bilhões em títulos públicos que pagam exatamente os juros da própria Selic. É o famoso lucro sem risco. Eles ganham simplesmente por emprestar dinheiro ao governo. Enquanto isso, pequenas empresas fecham as portas por não conseguirem crédito para sobreviver.

Há também o efeito indireto da inadimplência. Quando as famílias atrasam as dívidas, os bancos lucram com multas, juros rotativos e renegociações. A dor do consumidor vira rentabilidade para o sistema financeiro. Portanto, a Selic alta é um excelente negócio para os banqueiros. O setor financeiro gosta de juros elevados porque isso é garantia de lucro fácil, previsível e sem esforço.

Mas existe um detalhe importante. Os bancos preferem Selic alta com a economia funcionando. Se a taxa fica tão elevada a ponto de travar tudo, até eles perdem negócios. Mesmo assim, o saldo final sempre favorece o topo da pirâmide. Quem perde são as famílias endividadas, pequenos empreendedores, o comércio, a indústria e os trabalhadores que enfrentam a redução das vagas no mercado de trabalho.

Enquanto isso, o Brasil ostenta uma das maiores taxas de juros do mundo. Países desenvolvidos operam com quatro por cento, o Japão vive com praticamente zero, e o Brasil permanece acima dos quinze por cento. Não se trata apenas de uma política monetária severa. É um modelo estrutural que concentra renda e preserva privilégios.

Muitos perguntam por que o governo simplesmente não baixa a Selic. A resposta é política e econômica. Quando os juros caem sem preparo, os investidores estrangeiros fogem, compram dólares para levar o dinheiro embora e o real se desvaloriza. Com o dólar mais alto, tudo fica mais caro no Brasil, do combustível à comida. A inflação volta a subir e o caos se instala. Por isso, baixar a Selic exige confiança fiscal, estabilidade política e clareza nas contas públicas. Sem isso, o risco aumenta e a moeda derrete.

Imprimir dinheiro tampouco é uma solução. A história mostra que essa prática destrói a moeda. Mais dinheiro circulando sem aumento real de produção gera inflação, desvalorização e insegurança econômica. Países que tentaram esse caminho pagaram um preço altíssimo.

Os dados internacionais evidenciam a distorção. Enquanto México e Colômbia operam perto dos dez por cento, Estados Unidos e Reino Unido trabalham perto dos cinco. A União Europeia mantém quatro, e o Chile gira em torno de sete por cento. O Brasil é um ponto completamente fora da curva.

No fim das contas, a Selic se tornou um símbolo perfeito da desigualdade estrutural brasileira. Para quem tem dinheiro sobrando, é um investimento seguro com lucro alto. Para quem vive de trabalho, é uma barreira que impede sonhos, trava consumo, sufoca empresas e empurra o país para trás.

A verdade nua e crua é que a Selic alta funciona como acesso VIP para banqueiros e como muro para a população. É o reflexo de quem realmente manda na economia brasileira. Enquanto essa estrutura não for revista com coragem, o país continuará com um elevador social invertido. Quem tem dinheiro sobe. Quem tem dívidas desce. E o povo segue pagando a conta de um sistema que privilegia poucos e sacrifica muitos.

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