A imprensa que depende do orçamento público
A relação entre poder político e mídia tem uma engrenagem concreta: o dinheiro da publicidade estatal. Quando a sobrevivência financeira de um veículo passa pelo contrato público, o que se forma não é imprensa independente é dependência institucional disfarçada de cobertura jornalística.
O quanto o governo gasta para comunicar ou para convencer?
Os números são documentados e públicos. Em 2025, o orçamento da Secretaria de Comunicação Social (Secom) disparou para R$ 876 milhões, o maior desde 2017, na gestão Michel Temer. Em comparação, o valor foi de R$ 598 milhões em 2024 e R$ 531 milhões em 2023.
No governo Jair Bolsonaro, o maior gasto com publicidade federal em um único ano foi de R$ 462 milhões, registrado em 2021, terceiro ano do mandato. O salto atual, portanto, é expressivo e ocorre em ano pré-eleitoral, após o presidente Lula confirmar candidatura para 2026.
A pulverização como estratégia
Sob o comando do publicitário Sidônio Palmeira, que assumiu a Secom em janeiro de 2025, os gastos com publicidade digital triplicaram: de R$ 42 milhões em 2024 para R$ 129,6 milhões em 2025, recorde histórico da série. O Grupo Globo recebeu 49% da verba federal destinada à TV nos primeiros três anos do atual governo, o dobro do que recebeu no mesmo período da gestão anterior.
A estratégia se estende a rádios, portais regionais, influenciadores e big techs. Google e Meta concentraram mais da metade de todo o orçamento digital da Secom em 2025, recebendo R$ 39 milhões e R$ 35,8 milhões, respectivamente.
Quando a verba compra silêncio, não audiência
O debate público não questiona apenas o volume dos gastos, mas os critérios de distribuição. Relatórios jornalísticos indicam direcionamento de recursos para mídias e influenciadores alinhados ao governo, o que alimenta a suspeita de que parte da verba funciona como proteção editorial, o chamado “jabá” institucional.
O TCU suspendeu em 2024 uma megalicitação da Secom após recomendação de sua área técnica, que identificou irregularidades no processo. A licitação envolvia contratos de gestão de redes sociais e comunicação digital.
A pergunta que o dinheiro não responde
Quando a mídia depende do contrato público para pagar as contas, o cidadão perde o árbitro independente que deveria fiscalizar o poder. Problemas somem do noticiário. Crises viram inaugurações. E a democracia, que precisa de informação verdadeira para funcionar, passa a operar sobre uma narrativa que alguém financiou.
A questão não é ideológica. É estrutural: quem paga define o que se diz, ou o que se cala.
Fontes:
- Siga Brasil (Senado Federal) — Orçamento e execução da Secom 2023–2025: senado.leg.br/sigabrasil
- Sicom (Sistema de Comunicação de Governo do Poder Executivo Federal) — Dados de publicidade estatal federal por veículo e meio: sicom.secom.gov.br
- Secom — Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República — Nota oficial sobre orçamento e critérios de distribuição de publicidade: secom.gov.br
- TCU — Tribunal de Contas da União — Suspensão da megalicitação da Secom, 2024: tcu.gov.br









