Alexandre Ramagem, figura conhecida na política e nas forças de segurança, viveu uma guinada dramática em 2025. Testemunha viva de como privilégios e poder sobrevivem apenas até deixarem de servir aos interesses de quem os detém. O que parecia ser carreira consolidada, mandato parlamentar somado à posição de delegado da PF, transformou-se em sucessão inexorável de desventuras: salário cortado, mandato denunciado, demissão da corporação. A trajetória de ascensão vertical virou um descenso abissal.
O início da crise: a denúncia e o processo
No começo de 2025, Ramagem foi oficialmente denunciado no bojo de uma investigação que acusa vários políticos de envolvimento em suposto esquema de tentativa de golpe e organização criminosa armada. A denúncia formal, endereçada ao Supremo Tribunal Federal (STF), marcou a abertura de processo criminal pesado, envolvendo crimes de natureza grave com implicações diretas contra o Estado Democrático de Direito.
O que se seguiu foi o desgaste da blindagem institucional. Argumentos baseados em prerrogativas de mandato se mostraram frágeis diante da gravidade das acusações e da força da fundamentação da denúncia. Assim, o processo seguiu seu curso regularmente.
Condenação, fuga e o fim da “blindagem”
Em setembro de 2025, o STF condenou Alexandre Ramagem a uma pena de prisão de 16 anos. A decisão simbolizou o começo do fim: não mais foro privilegiado, não mais impunidade automática. Pouco depois, com trânsito em julgado e esgotados os recursos de defesa, a corte autorizou a execução da pena.
Não demorou para que Ramagem, contrariando ordens de prisão, deixasse o país por via terrestre, embarcando rumo ao exterior com passaporte diplomático (depois comum), buscando abrigo longe da jurisdição brasileira. Com isso, tornou-se oficialmente foragido da Justiça. A fuga selou sua ruptura com privilégios, mandatos e cargos públicos.
Corte do salário e perda de mandato
Algumas semanas após a condenação definitiva, a Câmara dos Deputados bloqueou o pagamento do salário e da cota parlamentar de Ramagem. A medida visava impedir que um condenado por crime grave e com prisão decretada continuasse a receber remunerações públicas como se mantivesse legitimidade institucional. O corte sinalizava que o Parlamento e o Estado não toleram, ou não querem tolerar, o peso da condenação e da condição de foragido.
Pouco depois, veio a comunicação oficial da perda do mandato. O reconhecimento de que um deputado que responde por crimes graves, condenado e foragido, não pode, não deve, permanecer como parlamentar. A cassação do mandato foi formalizada, apagando o último vestígio de legitimidade política.
Demissão da Polícia Federal: fim da farda e da carreira
O golpe final veio em 3 de dezembro de 2025: o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou portaria demitindo Alexandre Ramagem de seus quadros na Polícia Federal. A decisão cumpria uma determinação do STF, diante da condenação definitiva e da condição de foragido. A demissão formalizou a expulsão do ex-delegado das estruturas da lei — ironia do destino, para alguém outrora símbolo de autoridade e ordem.
Com a portaria, Ramagem perde o cargo de delegado, os salários correspondentes, os benefícios, e o status institucional que o acompanhava. A demissão não é apenas administrativa: é simbólica. Marca o fim da tolerância institucional e mostra que, no sistema de poder, valor só existe enquanto há utilidade.
O significado político da queda
O caso Ramagem escancara a lógica do poder no Brasil contemporâneo: privilégios, cargos, imunidades, todas construídas com base em legitimação formal, conivência institucional, e, muitas vezes, interesses mútuos. Quando essas vantagens passam a representar risco, prejuízo reputacional ou instabilidade política, o sistema age rápido. Desmantela alianças. Rasga contratos tácitos. Cancela salários. Suspende mandatos. Expulsa da corporação.
Ramagem, outrora muito mais do que um delegado ou parlamentar, símbolo de autoridade para uns, promessa de “lei e ordem” para outros, termina reduzido à condição de ex-nome que o poder decidiu descartar.
Em retrospectiva, a trajetória dele sintetiza algo que sempre soube existir, mas que hoje se torna mais claro: o Estado e suas instituições não derivam legitimidade só da lei, mas também da conveniência do momento. Quando essa conveniência evapora, quem antes ocupava o alto escalão cai. Sem dó. Sem cerimônia.








