Alianças inesperadas e comportamentos que fogem ao protocolo mostram que o Legislativo de São Caetano vive um momento de tensão e descrédito público.
A política brasileira convive, há décadas, com uma sucessão de contradições que desafiam a lógica do eleitor. Vimos reposicionamentos ideológicos improváveis e alianças entre adversários que, anos atrás, pareceriam impossíveis. Tudo para manter espaço e poder político.
Há um ditado que afirma que o macro é reflexo do micro, sugerindo que as ações, crenças e comportamentos em pequenas escalas se replicam na sociedade como um todo e vice-versa. E, ao que tudo indica, São Caetano do Sul está reproduzindo exatamente o que não funcionou no governo federal e nos seus gestores atuais.
A atual legislatura da Câmara tem sido palco de episódios caricatos: debates acalorados, suspensão de sessões, conflitos na tribuna e até comportamentos incompatíveis com a formalidade do plenário — como a constrangedora “dancinha” dos vereadores sobre a mesa, ao som de Elvis.
E há uma configuração política que chama ainda mais atenção. É, no mínimo, curioso ver vereadores do PSB atuando como base de apoio do prefeito Tite Campanella (PL), alinhado ao bolsonarismo. Trata-se de uma composição política incomum, que contrasta com a tradição histórica do PSB em estados como Pernambuco.
Tudo isso tem alimentado o debate público sobre a condução institucional da Casa e sobre seu valor ético e moral na representação dos munícipes.
Mas o foco do momento está na CPI da Dívida.
A Câmara abriu a comissão para investigar um suposto aumento expressivo do passivo financeiro do município referente ao exercício de 2024. A justificativa oficial é esclarecer valores, contratos e conciliações contábeis enviadas pela administração. Até aqui, trata-se de uma prerrogativa legítima do Legislativo.
O ponto de tensão surge quando, antes mesmo do parecer técnico do Tribunal de Contas — órgão responsável por balizar a regularidade das contas públicas — a Câmara aprovou o Contrato nº 03/2025 com a Fundace, no valor de R$ 800 mil, para elaboração de um relatório em apenas 30 dias. As atividades contratadas incluem revisão documental, reclassificação contábil e emissão de pareceres. Funções que, segundo especialistas, normalmente são atribuídas ao controle interno municipal e à Comissão de Finanças do próprio Legislativo.
É nesse contexto que surgem disputas judiciais.
Segundo os autos do Inquérito Policial nº 2321540-81.2025.900842, instaurado em 17 de setembro de 2025, a Polícia Civil investiga possíveis inconsistências contábeis e procedimentos administrativos relacionados ao envio de informações financeiras. O município aparece como vítima na investigação, que ainda está em fase preliminar e sem qualquer conclusão. O inquérito analisa hipóteses apontadas por documentos internos, incluindo divergências em conciliações e sobreposições de valores. Não há, até o momento, imputação formal de crime contra qualquer agente público.
Paralelamente, tramita a Ação Popular nº 1006236-31.2025.8.26.0565, que questiona a contratação da Fundace sem licitação e pede a suspensão do contrato, alegando possível desvio de finalidade e gasto indevido de recursos públicos. A ação também solicita que o Judiciário avalie a legalidade da CPI instaurada antes de parecer do Tribunal de Contas. Trata-se, novamente, de alegações — não decisões judiciais.
Um contrato de R$ 800 mil que pode escalar para crise política.
Caso o Judiciário entenda, futuramente, que houve irregularidade na contratação, há risco de responsabilização financeira para os vereadores que votaram favoravelmente, como prevê a legislação. Para membros do Executivo, o risco é administrativo e eventualmente penal, caso fique comprovado que documentos foram encaminhados sem verificação completa — algo que, por ora, está apenas sob análise e não caracterizado como fato.
Embora formalmente conduzida pela Câmara, a CPI tem efeitos que podem atingir também o governo Tite Campanella, já que parte da documentação analisada se origina do Executivo. Se o Judiciário identificar falhas de gestão ou falta de controle interno, qualquer repercussão política tende a afetar igualmente a administração municipal.
O Via Política News reforça que mantém espaço aberto para manifestação de todos os envolvidos: vereadores, membros da CPI, secretários municipais e Presidência da Câmara. Observância ao contraditório é parte do nosso compromisso editorial.
Nota do jornal: Esta reportagem se baseia exclusivamente em documentos oficiais anexados aos autos mencionados, todos públicos e disponíveis para consulta, sem interpretação conclusiva sobre mérito jurídico. Esta reportagem se baseia em documentos oficiais anexados aos autos do Inquérito Policial nº 2321540-81.2025.900842 e da Ação Popular nº 1006236-31.2025.8.26.0565










