Enquanto o brasileiro enfrenta juros entre os mais altos do mundo, o setor financeiro celebra resultados históricos. Em 2025, os quatro maiores bancos do país — Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander — somaram R$ 107,8 bilhões em lucro líquido, segundo dados divulgados pelas próprias instituições. O Itaú Unibanco, isoladamente, registrou R$ 46,8 bilhões, o maior lucro da história de um banco brasileiro. O Banco do Brasil ficou logo atrás, com R$ 44,5 bilhões, impulsionado pelo crédito ao agronegócio.
O desempenho bilionário não é coincidência nem novidade. Durante os dois primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010), o lucro dos três maiores bancos privados cresceu cerca de 420% em relação à gestão anterior, acumulando aproximadamente R$ 199 bilhões. No terceiro mandato, iniciado em 2023, o padrão se repete: em 2024, os três maiores bancos privados registraram crescimento de 22% no lucro, consolidando uma trajetória consistente de ganhos extraordinários.
O mecanismo central é a taxa Selic, que manteve média de 12,5% ao ano nos governos Lula, uma das mais altas do século. Combinada à alta concentração do setor, em que cinco instituições controlam entre 70% e 80% do crédito nacional, essa estrutura garante lucros bilionários mesmo em períodos de instabilidade econômica. A lógica é simples: diferente de setores industriais com custos elevados de produção e logística, os bancos “compram” dinheiro barato e “vendem” caro, com estrutura progressivamente enxugada pela digitalização. O resultado é uma margem de lucro sem paralelo na economia real.
Mas a influência do setor financeiro vai além dos balanços. Nomes como Milton Maluhy Filho (CEO do Itaú Unibanco), Luiz Carlos Trabuco Cappi (presidente do Conselho do Bradesco) e Cristina Junqueira (cofundadora do Nubank) integram formalmente o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o chamado “Conselhão” do governo Lula. Trabuco chegou a ser cotado para o Ministério da Fazenda no governo Dilma Rousseff. Já André Esteves, do BTG Pactual, mantém diálogo regular com o Palácio do Planalto, em encontros que incluem debates sobre política econômica.
A presença do setor no poder também se consolida pela formação de quadros políticos. Institutos como o RenovaBR, financiado por acionistas do Itaú e por Armínio Fraga, da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, e a Fundação Lemann treinaram parlamentares de diferentes partidos. Os eleitos se concentram principalmente no PSD, União Brasil, PSB e MDB. O currículo dessas formações inclui políticas públicas baseadas em evidências, orçamento público e gestão, ferramentas que moldam diretamente como futuros legisladores compreendem e decidem sobre economia.
Embora os institutos se declarem suprapartidários, o financiamento parte majoritariamente de pessoas físicas ligadas ao mercado financeiro, donos e sócios de bancos que, como instituições, evitam vínculos diretos por questões de compliance. O objetivo declarado é qualificar o debate público. O efeito prático é garantir que as regras do jogo econômico sejam debatidas por quem entende e, muitas vezes, se beneficia delas.
O resultado é um sistema em que o setor que mais lucra no país também está presente nas instâncias que definem as políticas que sustentam esses lucros, do Conselhão à Câmara.
Fontes: Itaú Unibanco — ri.itau.com.br | Banco do Brasil — bb.com.br/ri | Bradesco — bradescori.com.br | Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável — gov.br/casacivil | RenovaBR — renovabr.org










