É o maior colapso bancário brasileiro desde o caso Panamericano, em 2010.
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central nesta terça-feira, encerrando imediatamente suas operações e confirmando um dos maiores colapsos bancários do Brasil desde o caso Panamericano, em 2010. Embora a linguagem técnica usada pelo Banco Central evite o termo “falência”, na prática o Master quebrou. O BC considerou que não havia mais condições de continuidade operacional diante de uma combinação de fraudes bilionárias, risco sistêmico e deterioração irreversível das finanças da instituição. A queda do banco, que cresceu agressivamente nos últimos anos e buscou ocupar espaço entre os bancos médios mais rentáveis, expõe falhas de governança, risco excessivo e o que investigações chamam de manipulação contábil destinada a ocultar um rombo gigantesco.
A Polícia Federal, por meio da Operação Compliance Zero, afirma que o Banco Master esteve no centro de um esquema de fraudes estimado em cerca de 12 bilhões de reais. Segundo a PF, houve emissão de títulos de crédito sem lastro, manipulação de balanços, reestruturação artificial de dívidas, criação de operações fictícias e ocultação sistemática de prejuízos. A operação resultou na prisão do controlador do banco, Daniel Vorcaro, e do sócio Augusto Lima, além do afastamento de executivos ligados à instituição. Somado a isso, relatórios de mercado já indicavam há meses que o Master estava com problemas de liquidez, excesso de alavancagem e dependência perigosa de captações de alto risco. O colapso parecia iminente; o anúncio do BC apenas oficializou um processo que vinha se agravando de forma acelerada.
A liquidação extrajudicial impacta diretamente correntistas e investidores. Clientes com depósitos ou CDBs dentro da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos serão ressarcidos até o limite de 250 mil reais por CPF. Valores acima desse montante entram na fila de credores, um processo que pode levar anos e não garante a recuperação integral. Empresas que mantinham operações estruturadas, contratos de crédito, antecipação de recebíveis ou aplicações corporativas com o Master também serão atingidas, enfrentando prejuízos e incerteza jurídica. Funcionários da instituição provavelmente serão demitidos, já que o banco deixa de existir como operação ativa.
Um dos elementos mais sensíveis desse caso é o ambiente político que circunda o banco. Embora nenhum político tenha sido oficialmente denunciado ou investigado como parte direta do esquema, os controladores do Master mantinham amplo trânsito em Brasília. Jornalistas e analistas apontam que Daniel Vorcaro tinha relações com figuras do Centrão, incluindo nomes como Arthur Lira, Ciro Nogueira e Antonio Rueda. Já Augusto Lima era conhecido por sua proximidade com políticos da Bahia e de Brasília, atuando como articulador de interesses empresariais e institucionais. A operação da PF também levou ao afastamento do presidente do BRB, banco público do Distrito Federal, que negociava operações bilionárias com o Master e que agora estão sob suspeita. Essa conexão entre banqueiros, articuladores políticos e dirigentes públicos não significa crime comprovado, mas abre espaço para investigações sobre lobby, favorecimento e influência em negócios envolvendo órgãos estatais.
Apesar da magnitude do caso, especialistas afirmam que a falência do Banco Master não apresenta risco real ao sistema bancário brasileiro. O Banco Central foi rápido ao intervir, o sistema permanece líquido e capitalizado, e os grandes bancos não têm exposição significativa à instituição. A liquidação, embora impactante, evita que o problema se espalhe e reforça a percepção de que o Brasil possui uma das estruturas de supervisão financeira mais robustas do mundo. Isso não impede, porém, que haja efeitos econômicos no curto prazo. Bancos médios tendem a adotar postura mais cautelosa, o crédito pode ficar mais restrito e os investidores devem migrar para instituições maiores, reduzindo o espaço de bancos de nicho e de alta rentabilidade. A confiança nos bancos médios pode cair, levando a aumento de spreads e retração das operações corporativas.
A queda do Banco Master é, antes de tudo, um retrato da combinação brasileira de risco financeiro elevado, baixa transparência e relações políticas intensas. Embora o sistema esteja protegido, o episódio revela como práticas de gestão temerária e ambientes de influência podem destruir uma instituição em poucos meses e expor clientes, empresas e o próprio ambiente político a mais um escândalo nacional.










