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Estratégia de Transferência de Identidade

O uso da identidade social como ferramenta política

A “estratégia de transferência de identidade” na política refere-se ao uso deliberado de aspectos da identidade social — como nacionalidade, raça, gênero, classe ou religião — para construir vínculos emocionais com o eleitorado, mobilizar apoio e diferenciar-se de adversários. Trata-se de uma prática amplamente estudada pelas ciências sociais e pela psicologia política, que apontam a identidade coletiva como um dos motores centrais do comportamento eleitoral.

Como funciona

Pesquisas na área de psicologia social, como as de Henri Tajfel e John Turner (1979), com a Teoria da Identidade Social, demonstram que os indivíduos tendem a buscar pertencimento a grupos que reforçam sua autoestima e seus valores. Na política, isso se traduz na identificação com partidos, lideranças ou causas que “espelham” a própria visão de mundo.

A estratégia de transferência de identidade opera em quatro eixos principais:

1. Construção de vínculos:
Líderes e partidos moldam sua imagem e discurso para gerar identificação emocional com determinados grupos sociais. Isso é visível em campanhas que reforçam a ideia de “nós contra eles” e utilizam linguagem e símbolos que remetem a uma base cultural específica. Estudos de George Lakoff (2004) mostram que a linguagem política tem papel decisivo na formação dessas conexões simbólicas.

2. Mobilização e engajamento:
Ao apelar para uma identidade compartilhada — nacional, religiosa, de classe ou de gênero — o político transforma o eleitor em “militante emocional”. A ciência política chama isso de “mobilização afetiva”, conceito explorado por autores como Martha Nussbaum (2013) e William Connolly (2002), que descrevem como emoções coletivas são moldadas e instrumentalizadas no debate público.

3. Diferenciação:
A identidade política funciona como um marcador de fronteira simbólica, delimitando “quem pertence” e “quem está fora” do grupo. Esse processo de diferenciação é essencial para consolidar lealdades e reforçar a coesão de uma base de apoio. É o que a literatura chama de “polarização identitária”, estudada por Lilliana Mason (2018) e Pippa Norris & Ronald Inglehart (2019).

4. Instrumentalização estratégica:
Em certos contextos, a identidade é usada para legitimar projetos de poder ou justificar decisões políticas. Políticos podem, por exemplo, se apropriar de causas sociais para obter legitimidade moral ou expandir seu alcance eleitoral — fenômeno conhecido como “identity politics pragmatism”.

Exemplos práticos

  • Identidade nacional: No Brasil, a construção simbólica da identidade nacional no século XIX foi fundamental para manter a unidade territorial pós-independência. Historiadores como José Murilo de Carvalho destacam o papel dos símbolos, do hino e da narrativa da “nação mestiça” nesse processo de integração.

  • Políticas identitárias: Movimentos que defendem causas raciais, de gênero ou de classe usam a identidade como base política para reivindicar direitos e reconhecimento. As políticas de cotas e ações afirmativas são exemplos concretos dessa mobilização institucionalizada.

  • Discurso e símbolos: O uso de elementos religiosos, regionais ou populares — de bandeiras a bordões — reforça vínculos com grupos específicos, gerando identificação cultural.

  • Transformações partidárias: Em períodos de crise de representação, partidos recorrem a “renovações identitárias”, reconfigurando suas bandeiras ideológicas para dialogar com novos segmentos sociais, como jovens, empreendedores ou grupos ambientalistas.

5 pontos essenciais da Estratégia de Transferência de Identidade

1. Política como espelho social
O eleitor tende a apoiar quem representa seus valores e experiências — um reflexo direto do princípio da identificação coletiva estudado por Tajfel e Turner (1979).

2. Emoções como combustível político
A adesão ideológica é mais afetiva do que racional. Pesquisas em neurociência política (como as de Drew Westen, The Political Brain, 2007) mostram que decisões eleitorais são impulsionadas pela emoção e não apenas por argumentos lógicos.

3. Discurso simbólico
Palavras, slogans e gestos funcionam como gatilhos identitários. Conforme George Lakoff (2004), “quem define o enquadramento define a realidade política”.

4. Construção e diferenciação
A estratégia de identidade serve tanto para incluir (“somos o povo trabalhador”) quanto para excluir (“eles são a elite corrupta”), reforçando a coesão interna e a oposição externa.

5. Reconfiguração permanente
Partidos e líderes adaptam suas identidades conforme o contexto social. É a chamada renovação simbólica, comum em momentos de crise de representatividade e transição cultural.

Conclusão

A estratégia de transferência de identidade é uma poderosa ferramenta de engenharia simbólica na política contemporânea. Ela conecta emoção e racionalidade, transformando valores culturais em capital eleitoral. Como alertam estudiosos como Ernesto Laclau (2005), a política moderna é, em grande parte, a arte de construir identidades coletivas em disputa — um campo onde o símbolo vale tanto quanto o argumento.

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