O número de brasileiros endividados chegou a 78,8 milhões, segundo os dados mais recentes das entidades de proteção ao crédito. O volume mostra que mais de um terço da população adulta vive sob algum tipo de dívida, seja no cartão de crédito, no cheque especial, nos financiamentos ou em empréstimos de curto prazo. O endividamento já se tornou uma engrenagem permanente da economia brasileira, impulsionada por juros altos, queda do poder de compra e políticas que estimulam crédito fácil sem responsabilidade fiscal.
Os principais motivos do endividamento são conhecidos, mas se agravaram nos últimos anos. O primeiro é a perda contínua do poder aquisitivo. O salário real cresce pouco, enquanto alimentação, energia, serviços e moradia seguem avançando. A conta não fecha, e muita gente recorre ao cartão como extensão da renda mensal.
O segundo motivo é a taxa de juros abusiva, especialmente no rotativo do cartão de crédito, que transforma pequenas dívidas em montanhas impagáveis. Famílias que atrasam apenas um mês já veem o débito dobrar ou triplicar, caindo em um ciclo difícil de romper.
Há também o problema do crédito fácil, oferecido de forma agressiva por bancos e fintechs. Muitos consumidores aceitam empréstimos rápidos, sem entender o custo total. Em períodos de instabilidade econômica, o crédito vira uma armadilha: resolve o problema imediato, mas cria outro maior logo depois.
Enquanto milhões afundam em dívidas, existe um setor que cresce sem parar: a indústria financeira. Instituições bancárias são as principais beneficiadas pelo endividamento estrutural do país. Lucros bilionários são impulsionados justamente pelo rotativo do cartão, pelos refinanciamentos e pelos juros compostos cobrados mês a mês de quem já não consegue pagar a fatura. É um modelo que se retroalimenta: quanto pior a situação do cidadão, mais dinheiro entra para o sistema.
Além dos bancos, empresas de cobrança e securitizadoras também lucram. Elas compram carteiras de dívidas por valores muito abaixo do total e depois cobram dos consumidores tentando recuperar múltiplos desse investimento. É um mercado lucrativo que se fortalece sempre que a inadimplência cresce.
O fato é simples: o endividamento no Brasil não é acidente. É sintoma de uma economia frágil, salários baixos e juros indecentes e, ao mesmo tempo, é combustível para um setor financeiro que opera com margem altíssima. Enquanto isso não mudar, o número de brasileiros presos a dívidas só vai aumentar, e a engrenagem continuará girando para poucos, às custas de muitos.










