Um sistema que gira sem mover o país
O Brasil mantém um sistema educacional que distribui diplomas, mas não entrega conhecimento. Certifica, mas não transforma. Produz números para relatórios, mas não forma cidadãos preparados para o mundo real.
Campeão em matrículas e aprovações automáticas, o país celebra índices internos que dizem pouco sobre aprendizagem efetiva. O resultado é uma engrenagem burocrática focada em “passar de ano” — e um país parado.
O que dizem os números
O dado mais alarmante está na aprendizagem real. 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais — o mesmo patamar registrado em 2018, sem avanço em seis anos, segundo o Inaf 2024 (Indicador de Alfabetismo Funcional). Entre jovens de 15 a 29 anos, o índice subiu de 14% para 16% no mesmo período, reflexo das descontinuidades causadas pela pandemia.
O fracasso se confirma nas avaliações internacionais. No PISA 2022, o Brasil ficou na 64ª posição entre 81 países em matemática, na 53ª em leitura e na 61ª em ciências — atrás de Chile, Uruguai, México e Costa Rica. Em ciências, o Brasil ficou em último lugar na América do Sul, empatado com Argentina e Peru, com 55% dos estudantes abaixo do nível mínimo de desempenho.
Por que o Brasil falha onde outros avançam?
A resposta está em escolhas estruturais — não em falta de potencial.
A lacuna do idioma e da tecnologia
O ensino de inglês na rede pública é, na maior parte do país, precário: sem método, sem carga horária adequada, sem professores especializados. Em tecnologia, iniciativas de programação e robótica existem de forma pontual e nunca resultaram de política pública consistente. O Inaf 2024 revelou, pela primeira vez, dados sobre alfabetismo digital: 95% das pessoas consideradas analfabetas não conseguem executar tarefas digitais simples, e mesmo entre jovens de 15 a 19 anos, 61% falharam ao simular uma compra pela internet.
O espaço cedido à doutrinação
Enquanto o básico falha, parte do ensino superior prioriza militância política em detrimento de ciência, lógica, inovação e formação ética. O espaço que deveria ser ocupado pelo conhecimento cede lugar ao engajamento ideológico — e quem paga o preço é o estudante.
O que agrava ainda mais a crise
A corrupção é fator central. Investigações recentes revelaram esquemas de desvio de verbas educacionais, de contratos superfaturados no MEC a fraudes na merenda escolar. Recursos destinados à aprendizagem alimentam esquemas criminosos — e atingem diretamente crianças e jovens.
Outro erro estrutural é a tentativa de padronizar um país continental por meio de um currículo único centralizado em Brasília. O modelo ignora diferenças regionais e engessa estados e municípios. Experiências internacionais demonstram que autonomia regional, dentro de parâmetros mínimos, gera inovação e melhores resultados.
O que precisa mudar
O Brasil não fracassa por falta de potencial. Fracassa por insistir em um modelo ineficiente, centralizador e vulnerável à corrupção. A educação só avançará quando aprender for mais importante do que apenas frequentar a escola — e quando ensinar deixar de ser instrumento político para voltar a ser projeto de nação.
Fontes:
- Inaf 2024 (Indicador de Alfabetismo Funcional) — Ação Educativa, Conhecimento Social, Fundação Itaú, Unicef e Unesco. Disponível em: unicef.org/brazil
- PISA 2022 — OCDE/MEC/Inep. Disponível em: gov.br/mec
- Inaf 2024 — Alfabetismo Digital — Centro do Professorado Paulista. Disponível em: cpp.org.br










