Entenda por que meses como setembro (mês 7), outubro (8), novembro (9) e dezembro (10) têm nomes numéricos que hoje não correspondem às suas posições atuais (9º, 10º, 11º e 12º).

A criação do mês de janeiro não é um detalhe folclórico do calendário, mas um reflexo direto da forma como os romanos concebiam o tempo, a política e a ordem social. O calendário original de Roma, atribuído a Rômulo por volta de 738 a.C., possuía apenas dez meses, iniciando-se em março e encerrando-se em dezembro, com um total aproximado de 304 dias. O inverno, período improdutivo para a guerra e para a agricultura, simplesmente não era contabilizado. O tempo, para os romanos primitivos, era funcional: só existia quando havia ação, colheita ou conflito.
Essa lógica muda no século VII a.C., durante o reinado de Numa Pompílio, segundo rei de Roma. Numa promove uma reorganização profunda do calendário, incorporando os meses de janeiro (Ianuarius) e fevereiro (Februarius). A inclusão tinha um objetivo prático e religioso: alinhar o calendário aos ciclos lunares e introduzir um período dedicado à purificação e aos ritos de passagem. Fevereiro passa a ser o mês das expiações; janeiro, o da abertura. Ainda assim, por séculos, o ano continuou começando oficialmente em março, mantendo a herança militar e agrícola da Roma arcaica.
A fixação definitiva do dia 1º de janeiro como início do ano só ocorre em 46 a.C., com a reforma do calendário promovida por Júlio César. O chamado calendário juliano impôs uma racionalização do tempo alinhada ao poder central e à administração do império. O começo do ano em janeiro deixa de ser apenas simbólico e passa a ser político: o tempo agora serve ao Estado. Essa mudança explica a aparente contradição nos nomes dos meses: setembro, outubro, novembro e dezembro mantêm etimologias numéricas que remetem à antiga posição como sétimo, oitavo, nono e décimo meses, evidência viva de um calendário que foi adaptado, não reinventado.
O nome janeiro deriva de Jano (Janus), uma divindade exclusivamente romana. Jano não tem equivalente direto no panteão grego, o que reforça seu caráter institucional e não mitológico no sentido clássico. Ele é o deus dos começos, das transições, dos portais e dos limiares. Representado com duas faces — uma voltada para o passado e outra para o futuro —, Jano não simboliza ambiguidade, mas vigilância. Ele observa o que foi feito e o que está por vir. Nada começa sem que o passado seja considerado.
A centralidade de Jano na estrutura simbólica romana não é casual. Roma era uma civilização jurídica, administrativa e ritualística. A ideia de passagem controlada, de mudança ordenada, é coerente com uma sociedade que valorizava a tradição, a autoridade e o rito. Jano era invocado antes de qualquer outro deus nos rituais, justamente porque nenhuma ação podia ocorrer sem a abertura correta do tempo e do espaço.
Apesar de ser exclusivamente romano, Jano encontra paralelos funcionais em outras culturas. Na tradição etrusca, Culśanś desempenhava papel semelhante como guardião dos portões e das entradas das cidades, também representado com duas faces. Na mitologia hindu, Ganesha cumpre funções quase idênticas: é o deus dos começos, das transições e da remoção de obstáculos. A diferença está na forma simbólica, não na função. Onde Jano expressa dualidade pelo rosto humano duplicado, Ganesha a expressa pela fusão entre homem e animal.
Na mitologia nórdica, Heimdall surge como sentinela do limiar cósmico, guardião da ponte Bifröst, que conecta mundos distintos. Sua função não é iniciar, mas proteger a passagem. No Egito Antigo, a figura menor de Her-ef-ha-ef, o barqueiro das almas, compartilha a iconografia de olhar para duas direções, simbolizando o trânsito entre vida e morte. Já na Mesopotâmia, Usmu (ou Isimud), mensageiro de duas faces, atuava como intermediário entre esferas distintas do poder divino.
Esses paralelos demonstram que a ideia de transição controlada é universal, mas Roma a institucionalizou como nenhuma outra civilização. Janeiro não é apenas o primeiro mês do ano. É a afirmação de que todo começo legítimo exige consciência do passado e responsabilidade com o futuro. Essa é a lógica que sustenta o calendário que ainda usamos — e que muitos seguem sem compreender sua origem.










