Dengue supera COVID-19 e se torna maior causa de mortes infecciosas no Brasil em 2024
Em 2024, o Brasil assistiu a uma inversão simbólica e trágica: a dengue matou mais do que a Covid-19. Foram mais de 6 mil mortos por uma doença conhecida, previsível e combatível, contra cerca de 5.900 óbitos por Covid no mesmo período. O dado não é apenas estatístico. É político, administrativo e histórico. É o retrato de um Estado que reage, mas não previne.
A dengue não surgiu ontem. O mosquito Aedes aegypti é velho conhecido dos brasileiros, assim como as campanhas de verão, os carros de som e os comerciais repetidos ano após ano. O problema é que propaganda não substitui gestão, e discurso não elimina foco de mosquito. O resultado foi um colapso silencioso: mais de 6,6 milhões de casos prováveis em um único ano e um salto de mais de 400% nas mortes em relação a 2023.
Enquanto a Covid foi enfrentada com medidas emergenciais, orçamento extraordinário, vacinação em massa e mobilização nacional, a dengue continuou tratada como rotina burocrática. Endêmica, banalizada e empurrada para os municípios sem estrutura, virou uma bomba-relógio. Quando explodiu, já era tarde.
O argumento climático existe, mas não explica tudo. Calor e chuvas sempre fizeram parte do Brasil. O que mudou foi a incapacidade crônica de lidar com saneamento básico, urbanização desordenada e vigilância epidemiológica eficaz. A dengue prospera onde o poder público falha — e falha há décadas.
A comparação com a Covid é incômoda, mas necessária. A pandemia escancarou que o Estado brasileiro sabe agir quando quer. O problema é a vontade política. Contra a dengue, nunca houve urgência real, nunca houve choque de gestão, nunca houve responsabilização. O mosquito venceu pelo cansaço.
Em 2025, os números começaram a cair. Ótimo. Mas isso não é vitória; é apenas o recuo natural de um ciclo epidemiológico. Sem mudanças estruturais, a próxima explosão já está contratada. A dengue não some, ela espera.
O dado central é simples e duro: mais brasileiros morreram em 2024 por uma doença antiga, evitável e ignorada do que por um vírus que parou o mundo. Isso não é azar. É escolha. É prioridade errada. E é a prova de que, no Brasil, o passado insiste em cobrar quando o presente prefere empurrar com a barriga.










