Em janeiro de 2026, a crise provocada pela liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro do ano anterior, ganhou contornos políticos mais amplos. A oposição no Congresso Nacional concluiu a articulação necessária para criar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) com o objetivo de investigar as causas da quebra do banco, os prejuízos bilionários e possíveis conexões com órgãos públicos e o Judiciário.
Entre o fim de dezembro de 2025 e o início de janeiro de 2026, o requerimento da CPMI atingiu o número mínimo de assinaturas exigido pela Constituição. Até o dia 2 de janeiro, o pedido contava com cerca de 205 assinaturas, sendo 177 deputados federais e 28 senadores, superando com folga o limite necessário. A instalação formal da comissão, no entanto, ainda depende da leitura do requerimento pelo presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, o que deve ocorrer após o recesso parlamentar, em fevereiro.
A comissão pretende investigar três frentes centrais. A primeira envolve suspeitas de fraudes financeiras estimadas em cerca de R$ 12 bilhões. Há indícios de que o banco teria “fabricado” carteiras de crédito fictícias para esconder sua real situação de insolvência, enganando investidores, fundos de pensão e entes públicos.
O segundo eixo diz respeito à tentativa frustrada de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). A operação, que não se concretizou, levantou suspeitas de prejuízos a fundos previdenciários e instituições públicas que mantinham recursos aplicados no banco. A CPMI quer esclarecer quem autorizou as negociações, quais garantias foram oferecidas e por que o negócio avançou mesmo diante de sinais de colapso financeiro.
O terceiro ponto é o mais sensível politicamente. A comissão pretende apurar contratos advocatícios milionários firmados entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, além de reuniões entre o ministro e o presidente do Banco Central durante o desenrolar da crise.
Nos últimos meses, o caso teve desdobramentos relevantes. O controlador do banco, Daniel Vorcaro, foi preso preventivamente em novembro de 2025 e prestou depoimento à Polícia Federal em 30 de dezembro, negando irregularidades e criticando a rapidez da liquidação. Em paralelo, o ministro Dias Toffoli autorizou acareações entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB para esclarecer contradições nos relatos.
A liquidação do Banco Master afetou cerca de 1,6 milhão de credores. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estima desembolsar R$ 41 bilhões em ressarcimentos, com pagamentos previstos para o início de 2026. Nesse contexto, a CPMI surge como um teste de fogo para a relação entre Congresso e Judiciário, com potencial para expor responsabilidades no topo da República.










