Os dados de consumo de carnes no Brasil entre 2019 e 2025 revelam uma mudança clara no padrão alimentar da população. Não se trata de abandono da proteína animal, mas de adaptação forçada pelo bolso. A carne bovina perdeu espaço nos anos mais duros da inflação e do ciclo pecuário, enquanto frango e carne suína assumiram papel central na mesa do brasileiro por serem mais acessíveis.
Em 2019, o consumo per capita de carne bovina era de 30,4 kg por habitante ao ano. Esse número caiu de forma contínua até 2022, quando atingiu 24,2 kg — o menor nível em 18 anos. No mesmo período, o frango e a carne suína avançaram. O frango saiu de 42,8 kg em 2019 para 44,6 kg em 2022, enquanto a suína subiu de 15,3 kg para 19 kg. A substituição foi direta: boi caro, frango e porco no lugar.
O consumo total de carnes se manteve relativamente estável entre 2019 e 2022, oscilando entre 88 e 90 kg por habitante. Isso desmonta a tese de colapso produtivo. O problema não foi falta de carne no país, mas mudança na composição da oferta e no destino da produção, especialmente da carne bovina.
Entre 2019 e 2022, dois fatores atuaram de forma decisiva. O primeiro foi o ciclo pecuário. A produção de carne bovina caiu de forma significativa, chegando em 2022 a cerca de 8,1 milhões de toneladas, o menor volume em mais de 20 anos. Produtores optaram por reter fêmeas para recomposição de rebanho, reduzindo a oferta de animais para abate. O segundo fator foi o foco crescente nas exportações. Com o dólar elevado, vender carne para o exterior — especialmente para a China — tornou-se muito mais lucrativo do que abastecer o mercado interno. Em 2022, a receita com exportações de carne bovina cresceu cerca de 42%.
Esse movimento teve impacto direto nos preços internos. Menor oferta de boi, custos elevados de insumos como milho e soja e inflação generalizada pressionaram o consumidor. O resultado foi a queda histórica no consumo de carne vermelha e a migração para proteínas mais baratas, como frango, suínos e ovos.
A partir de 2023, o cenário começa a mudar. O consumo de carne bovina reage, subindo para 26 kg, e dá um salto expressivo em 2024, quando atinge cerca de 35 kg por habitante. No mesmo ano, a disponibilidade interna total de proteínas animais — somando bovina, frango e suína — alcança aproximadamente 105 kg por habitante, um recorde histórico. Esse avanço é explicado por três fatores principais: aumento da produção nacional, recuperação parcial do poder de compra e maior oferta de animais para abate no fim do ciclo pecuário.
Em 2025, o Brasil consolida sua posição como o maior produtor mundial de carne bovina, superando os Estados Unidos. No entanto, isso não significa alívio pleno para o consumidor. As projeções indicam uma leve queda no consumo de carne bovina, para cerca de 32 kg por habitante, enquanto frango e suínos seguem em alta, com estimativas de 46,8 kg e 20,2 kg, respectivamente.
O motivo é direto: preço. Em 2025, a carne vermelha acumula alta estimada entre 18% e 20%, puxada pela valorização das exportações, pela desvalorização do real e pela menor oferta de bois para abate. A demanda externa continua forte, especialmente de China e Estados Unidos, reduzindo a disponibilidade no mercado interno. O brasileiro, novamente, responde com substituição, não com abandono da proteína.
O que se observa, portanto, não é uma crise de produção total, mas uma reorganização estrutural do consumo. O frango se consolida como a principal proteína do país, a carne suína registra o maior crescimento proporcional da última década e a carne bovina passa a ser mais sensível a ciclos econômicos e à pressão internacional.
Em resumo, entre 2019 e 2025, o prato do brasileiro mudou menos por escolha e mais por necessidade. A produção cresceu, o Brasil ganhou protagonismo global, mas o acesso à carne bovina tornou-se mais dependente de renda, preço e política cambial. O mercado interno segue funcionando — só não é mais prioridade absoluta.







