A partir de 1º de janeiro de 2026, a China passou a aplicar novas restrições e tarifas sobre a carne bovina brasileira, medida que afeta diretamente o principal mercado externo do produto nacional. O impacto é relevante: o Brasil é hoje o maior fornecedor de carne bovina para os chineses, e a mudança altera de forma estrutural o fluxo do comércio.
O novo modelo funciona por cotas de importação. Para 2026, a China fixou um limite de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina brasileira. Dentro desse volume, a tarifa aplicada é de 12%, já conhecida pelo setor. O problema surge no que ultrapassar esse teto. Todo o volume excedente passa a sofrer uma sobretaxa de 55%, que, somada à tarifa base, leva a uma taxação total de até 67%, tornando a exportação economicamente inviável.
Segundo o governo chinês, a decisão é uma medida de salvaguarda, prevista nas regras do comércio internacional. Pequim afirma que o aumento constante das importações causou “sérios danos” à pecuária local. Entre os motivos alegados estão a queda dos preços internos, o excesso de oferta e a baixa competitividade da produção chinesa frente a grandes exportadores como Brasil, Austrália e Estados Unidos.
A medida é resultado de uma investigação iniciada em dezembro de 2024, que concluiu pela necessidade de limitar volumes para estabilizar o mercado doméstico. Oficialmente, a tarifa de 55% não é uma sanção contra o Brasil, mas uma penalidade aplicada a qualquer país que ultrapasse sua cota anual. Na prática, porém, o Brasil é o mais atingido, pois já exportou em 2025 um volume superior ao limite agora imposto.
As consequências são pesadas. A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) estima uma perda potencial de até US$ 3 bilhões em receita em 2026. Além disso, há previsão de redução de até 500 mil toneladas nas exportações para a China. Com a sobretaxa, vender acima da cota simplesmente deixa de fazer sentido do ponto de vista financeiro.
O impacto se espalha por toda a cadeia do agronegócio. Investimentos podem ser adiados, contratos revistos e há reflexos no mercado futuro. Na B3, já se observa pressão sobre os contratos da arroba do boi gordo, com especulações de queda de preços no médio prazo. Para o consumidor brasileiro, especialistas avaliam que o efeito imediato deve ser limitado, mas o cenário é de incerteza.
Diante do quadro, o governo brasileiro tenta reagir no campo diplomático. O Ministério da Agricultura negocia com Pequim a transferência de cotas não utilizadas por outros países e pede isenção da nova tarifa para cargas embarcadas antes de 1º de janeiro de 2026. Ao mesmo tempo, o Brasil terá de acelerar a diversificação de mercados, reduzindo a dependência de um único comprador. A mensagem chinesa é clara: o jogo mudou.










