Uma construtora declarada inidônea administrativamente recebeu mais de R$ 160 milhões do Governo de Pernambuco para fazer manutenção em escolas públicas. Os documentos que comprovam as irregularidades são públicos e verificáveis. Mas as denúncias chegaram ao noticiário nacional em março de 2026, ano eleitoral, pelas mãos de um deputado que acabou de migrar para o partido do principal adversário da governadora Raquel Lyra. O fato é real. O uso político também parece ser. E os documentos estão disponíveis para quem quiser checar.
O contrato foi assinado pela Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco em junho de 2025, com valor inicial de R$ 148,2 milhões, elevado depois para R$ 185,3 milhões via aditivo de 25%, o máximo permitido por lei. No momento da assinatura, a Cetus Construtora, sediada em Fortaleza, estava registrada no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS), banco de dados da Controladoria-Geral da União (CGU). A sanção havia sido aplicada pela Prefeitura de Belo Horizonte por descumprimento contratual, com validade entre março de 2025 e março de 2026. Você pode consultar o registro diretamente em portaldatransparencia.gov.br, pelo CNPJ da empresa.
A contratação ocorreu pelo mecanismo de “carona” em ata de registro de preços, sem licitação própria e sem análise prévia da Procuradoria-Geral do Estado, procedimento obrigatório para contratos acima de R$ 1 milhão. A procuradoria é chefiada por Bianca Teixeira Lyra, prima da governadora. Na mesma ata havia outra empresa habilitada, a BDT Engenharia, com preços menores. Mesmo assim, a Cetus foi escolhida. Os documentos de empenho, incluindo os R$ 76,9 milhões pagos com recursos do Fundeb, estão disponíveis no Portal de Transparência do Governo de Pernambuco em transparencia.pe.gov.br.
Os relatórios técnicos apontam boletins de medição duplicados, reutilização de fotografias para comprovar obras em escolas diferentes e superfaturamento de até 270% em alguns itens. Em apenas uma regional, medições repetidas de agosto e outubro geraram cobranças de R$ 797,5 mil. O TCE-PE já emitiu notificações e recomendou suspender novos pagamentos até comprovação dos serviços. As deliberações do tribunal podem ser acompanhadas em tcepe.tc.br.
O principal denunciante, o deputado estadual Romero Albuquerque, migrou do União Brasil para o PSB de João Campos, principal pré-candidato ao governo de Pernambuco em 2026 e adversário direto de Raquel Lyra. As denúncias explodiram exatamente após essa filiação. A CPI do Bilhão, criada na Alepe para investigar contratos da gestão Lyra, é conduzida pela oposição em ritmo acelerado em ano eleitoral. O governo sustenta que todos os procedimentos seguiram os trâmites legais e que auditorias internas estão em andamento.
A versão da Cetus Construtora:
Em 31 de março de 2026, a empresa enviou a este portal quatro certidões oficiais emitidas no dia anterior, contestando o conteúdo da reportagem. O TCU certifica que a Cetus não consta na lista de licitantes inidôneos do tribunal e não figura no Cadirreg, cadastro de contas julgadas irregulares. O Tribunal de Justiça de Pernambuco e a Justiça Federal emitiram certidões criminais negativas, confirmando que não há processos criminais em andamento contra a empresa nas esferas estadual e federal. A empresa afirma que participou e participa de processos licitatórios de forma regular e em estrita conformidade com a legislação vigente, e que inexiste decisão definitiva que a impeça de contratar com o poder público. O advogado Samuel Marques solicitou formalmente a retirada da matéria ou, alternativamente, a anonimização do nome do sócio administrador citado nos documentos públicos.
O caso está na fase de investigação e controle preventivo. Nenhum julgamento definitivo foi proferido até 31 de março de 2026. Para acompanhar decisões futuras, o caminho é monitorar o portal do TCE-PE e os trabalhos da CPI do Bilhão na Alepe. Os documentos são reais. A versão da empresa também é real. O timing político também é real. Cabe ao leitor, com acesso a todas as fontes, decidir o peso de cada lado.
Atualizado em 31 de março de 2026
Nota do Editor: Esta matéria foi atualizada após a Cetus Construtora apresentar certidões negativas criminais e do TCU em resposta à publicação original. Os documentos da empresa estão descritos ao final do texto.










