A investigação envolvendo o Banco Master tornou-se um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos, não apenas pelo volume das supostas fraudes, mas também pela forma como o caso passou a ser conduzido no Supremo Tribunal Federal (STF). No centro dessa discussão está o ministro Dias Toffoli, relator do processo, cuja atuação tem provocado repercussões jurídicas, políticas e institucionais.
O Banco Master entrou no radar das autoridades após o Banco Central identificar indícios de fraudes financeiras bilionárias, incluindo a emissão de créditos fictícios e inconsistências graves na gestão da instituição. O caso ganhou dimensão ainda maior quando veio à tona a tentativa frustrada de aquisição do banco pelo Banco de Brasília (BRB). Diante da gravidade das irregularidades, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, uma medida extrema reservada a situações de risco sistêmico.
A investigação é conduzida pela Polícia Federal no âmbito da operação batizada de Compliance Zero. Executivos do banco, entre eles o empresário Daniel Vorcaro, chegaram a ser presos e posteriormente liberados mediante medidas cautelares. Em razão de conexões institucionais e do envolvimento de autoridades com prerrogativa de foro, o caso acabou chegando ao STF.
Dias Toffoli tornou-se relator por sorteio eletrônico, conforme determina o regimento interno da Corte. Não houve escolha política direta. No entanto, como ocorre com frequência em processos de grande relevância, o debate não se concentra no sorteio em si, mas no caminho que leva o caso ao Supremo. Quem provoca a Corte, de que forma o pedido é apresentado e em que momento processual isso ocorre são fatores que, na prática, podem influenciar o resultado da distribuição.
Uma vez definido como relator, Toffoli passou a concentrar as decisões centrais do processo. Ele retirou o caso das instâncias inferiores, determinou que todas as medidas tramitassem exclusivamente no STF e impôs sigilo à investigação. Também autorizou a retomada de diligências pela Polícia Federal, incluindo oitivas e pedidos de quebra de sigilo, além de ter determinado inicialmente uma acareação entre o dono do banco, o ex-presidente do BRB e um diretor do Banco Central.
Essa decisão específica gerou forte reação. Juristas e especialistas do mercado financeiro classificaram a medida como excessiva e potencialmente danosa à segurança jurídica e à autonomia técnica do Banco Central. Diante das críticas, houve um recuo parcial: a Polícia Federal passou a ter autonomia para avaliar a necessidade de confrontar versões após a coleta dos depoimentos individuais.
Toffoli também fez questão de registrar em despachos que o Banco Central não figura como investigado, buscando delimitar responsabilidades institucionais. Ainda assim, o episódio ampliou o debate sobre os limites da atuação do Judiciário em temas sensíveis do sistema financeiro, sobretudo quando decisões são tomadas durante o recesso e em fases iniciais da apuração.
Paralelamente, voltou ao debate público a atuação profissional de Roberta Maria Rangel, ex-esposa de Dias Toffoli. Advogada com presença consolidada nos tribunais superiores, ela atua no STF e no STJ em causas empresariais de grande porte, com clientes como o grupo J&F e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Levantamentos da imprensa apontam que, desde a posse de Toffoli no STF em 2009, o número de processos patrocinados por ela nessas cortes cresceu cerca de 140%.
Do ponto de vista legal, não há impedimento para que familiares de ministros atuem como advogados em tribunais superiores. A regra é clara: o ministro deve se declarar impedido apenas nos processos em que haja atuação direta do cônjuge ou parente. Toffoli já adotou esse procedimento em casos específicos. Ainda assim, o aumento expressivo da atuação de Roberta Rangel alimenta questionamentos éticos e discussões sobre percepção pública e confiança institucional, mesmo sem qualquer comprovação de favorecimento.
Atualmente, o caso Banco Master segue sob sigilo no STF. A Polícia Federal continua responsável pelas diligências, enquanto o mercado financeiro acompanha com atenção os desdobramentos, diante do potencial impacto sistêmico. Mais do que um caso isolado, o episódio escancara um problema estrutural: a concentração de poder nas mãos de um único relator e o uso estratégico do acesso ao Supremo. No Brasil, o sorteio é técnico. A disputa real acontece antes — e os efeitos se sentem depois.










