O Brasil construiu uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas cometeu um erro básico de Estado: abriu mão de produzir um insumo essencial para sustentar essa própria força. O resultado é direto — dependência externa, vulnerabilidade e custo mais alto para toda a cadeia produtiva. A sequência de decisões passa pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, que conduziram — com justificativas econômicas — a saída da Petrobras do setor de fertilizantes. Na prática, o país desmontou sua própria capacidade produtiva sem construir alternativa.
Entre 2016 e 2018, no governo Temer, a estatal adotou a estratégia de focar apenas em petróleo e gás, abandonando áreas consideradas menos lucrativas. Fábricas na Bahia e em Sergipe foram paralisadas, marcando o início do recuo. Já em 2020, no governo Bolsonaro, foi fechada a FAFEN-PR, uma das principais unidades do país. Três grandes fábricas encerradas. Um setor estratégico praticamente abandonado. O erro não foi apenas fechar. Foi fechar sem plano.
Hoje, os números escancaram o tamanho da falha: entre 80% e 90% dos fertilizantes usados no Brasil são importados, e em nutrientes críticos a dependência é ainda maior — cerca de 97% do potássio e mais de 90% do nitrogênio vêm de fora. Isso significa que o país importa dezenas de milhões de toneladas por ano, gerando um déficit bilionário e deixando sua produção agrícola exposta a fatores externos. Isso não é detalhe técnico. É vulnerabilidade estrutural.
Quando crises globais atingem energia, logística ou geopolítica, o impacto chega direto no campo. Foi o que se viu recentemente, quando choques internacionais elevaram drasticamente os preços dos fertilizantes, pressionando custos e alimentos. Quem depende, paga mais e tem menos controle.

Países que tratam fertilizantes como tema estratégico não operam assim. Os Estados Unidos, por exemplo, mantêm produção interna relevante e dependência muito menor em nutrientes-chave, garantindo estabilidade. Já potências como China e Rússia vão além: controlam produção, estoques e exportações, usando fertilizantes como instrumento econômico e geopolítico. O Brasil fez o oposto — entregou o controle de um insumo essencial ao mercado internacional.
O mais grave é o paradoxo: não faltam recursos no país. O Brasil possui reservas minerais importantes, disponibilidade de gás natural e uma das maiores demandas agrícolas do planeta. Ainda assim, tornou-se um dos maiores importadores do mundo. Tem matéria-prima, tem mercado e tem escala — o que faltou foi estratégia.
Com planejamento consistente, o país poderia ter seguido outro caminho: manter uma base mínima de produção nacional, criar estoques estratégicos, incentivar a entrada do setor privado e tratar fertilizantes como infraestrutura crítica. Mais do que isso, teria condições reais de reduzir a dependência e até se posicionar como exportador, capturando valor dentro da própria cadeia do agronegócio.
No fim, a conta é simples. Não foi acidente. Foi escolha. Michel Temer iniciou a saída do setor. Jair Bolsonaro manteve e aprofundou o caminho. Ambos seguiram uma lógica de curto prazo — eficiência imediata em troca de vulnerabilidade futura. O resultado está posto: um país que lidera a produção de alimentos, mas depende de outros para plantar. Sem estratégia de soberania, não existe potência — só aparência dela.










