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Brasil bate recorde de aprovação de agrotóxicos em 2025, mas o acumulado do governo Lula ainda não supera o do governo Bolsonaro.

O Brasil encerra 2025 com um marco que ajuda a entender o rumo da política agrícola e ambiental do país: foi o ano com o maior número de registros de agrotóxicos da série histórica. Segundo relatório da CropData, ao longo do ano foram autorizados 560 agrotóxicos químicos e 139 bio-insumos, totalizando 699 novos produtos liberados para uso no campo. O número supera qualquer outro já registrado no país.

O dado confirma uma trajetória de crescimento contínuo. Em 2024, o Brasil já havia registrado 663 autorizações, o que até então era o maior patamar histórico. Em 2025, esse teto foi novamente rompido, consolidando um ritmo acelerado de liberações que atravessa diferentes governos e discursos políticos.

Para entender o cenário, é preciso separar duas métricas fundamentais. A primeira é o registro anual. Sob esse critério, não há dúvida: 2025 lidera a série histórica recente, considerando tanto agrotóxicos químicos quanto bio-insumos. A segunda métrica é o acumulado por governo, e aqui o quadro muda.

Apesar do recorde pontual de 2025, o total de produtos autorizados nos três primeiros anos do governo Lula (2023 a 2025) ainda não supera o volume liberado durante os quatro anos do governo Bolsonaro (2019 a 2022). Nesse período, foram 2.182 agrotóxicos aprovados, o maior acumulado já registrado em um mandato presidencial no Brasil. Em números absolutos, o governo Bolsonaro acelerou as liberações ano após ano, atingindo 652 novos registros apenas em 2022, que era o recorde anual até ser superado recentemente.

Esse movimento revela que a política de ampliação do arsenal de insumos agrícolas não é episódica. Ela reflete a atuação contínua do setor produtivo e de seus aliados políticos, que defendem maior oferta de produtos — tanto pesticidas tradicionais quanto agentes biológicos considerados menos tóxicos — como parte central da estratégia de competitividade do agronegócio brasileiro.

O peso da bancada do agro no Congresso

A velocidade das aprovações não ocorre por acaso. No Congresso Nacional, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), conhecida como bancada ruralista ou bancada do agro, exerce influência direta sobre a legislação que regula o uso e o registro de agrotóxicos.

Hoje, a FPA reúne 353 parlamentares federais, sendo 303 deputados e 50 senadores formalmente inscritos. Trata-se de uma das maiores frentes parlamentares do país, com presença em praticamente todos os partidos de centro e direita e representantes de todas as regiões. Historicamente, estimativas apontam que a bancada ruralista chega a ocupar quase metade das cadeiras em cada Casa do Congresso, o que explica sua força política.

Esse tamanho garante poder real. A FPA consegue articular maiorias em comissões estratégicas, como as de Agricultura e Meio Ambiente, influencia a escolha de relatores e lideranças e atua de forma coordenada nas votações. O resultado é a aprovação de leis e regulamentações que flexibilizam, agilizam ou desburocratizam o processo de registro de agrotóxicos, uma demanda antiga do setor produtivo rural.

O nome central e o produto mais controverso

Dentro desse arranjo político, um nome se destaca: o deputado Pedro Lupion (PP-PR). Presidente da FPA e reeleito para o cargo até 2027, Lupion tornou-se o principal articulador da agenda do agronegócio no Congresso, coordenando a atuação da bancada e garantindo apoio às pautas de interesse do setor.

Do outro lado da discussão está o impacto na saúde pública. Entre os produtos autorizados no Brasil, o glifosato é o exemplo mais emblemático. Trata-se do herbicida mais utilizado no país e classificado pela Organização Mundial da Saúde como “possivelmente cancerígeno”. Ele é amplamente aplicado em culturas como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar.

Estudos associam a exposição ao glifosato e a outros agrotóxicos a uma série de problemas de saúde: câncer, distúrbios hormonais, efeitos neurológicos, problemas reprodutivos e intoxicações agudas. A população é exposta principalmente por resíduos nos alimentos, contaminação da água e contato direto em áreas rurais, inclusive por pulverização aérea.

Um conflito permanente

O cenário que se desenha é claro. Política pública e evidência científica seguem em direções opostas. De um lado, o avanço constante dos registros, sustentado pelo peso político da bancada do agro. De outro, alertas recorrentes da ciência e da saúde pública sobre os riscos da exposição contínua a essas substâncias.

2025 entra para a história pelos números. O debate que permanece é sobre o custo real desse modelo — e quem paga essa conta no longo prazo.

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