A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, acendeu um alerta silencioso — e grave — sobre a gestão dos recursos previdenciários no Brasil. No Nordeste, embora a exposição não seja generalizada, dois municípios concentram aportes relevantes feitos por regimes próprios de previdência social (RPPS): Maceió (AL) e Paulista (PE). O risco agora é objetivo: perda parcial ou total dos valores investidos, com impacto direto sobre aposentadorias de servidores públicos.
Levantamentos indicam que o Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (Iprev) realizou uma das maiores aplicações municipais do país no Banco Master. Os valores variam entre R$ 117 milhões e R$ 168,5 milhões, alocados majoritariamente em letras financeiras e fundos de perfil elevado de risco. Trata-se de uma decisão que contraria o princípio básico da previdência pública: preservação de capital acima de rentabilidade agressiva.
Em Paulista (PE), o PreviPaulista aplicou cerca de R$ 3,5 milhões em letras financeiras da instituição. Embora o montante seja menor, o problema é o mesmo: exposição a um ativo sem proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Em outras palavras, não há rede de segurança para recuperar o dinheiro após a quebra.
O dado mais revelador é o que não aparece. Ceará, segundo informações divulgadas após a liquidação, não possui investimentos no Banco Master. O mesmo vale para Bahia, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão, que não figuram entre os 18 institutos de previdência com aportes diretos na instituição. Isso desmonta a narrativa de “risco regional” e aponta para responsabilidade administrativa localizada.
Especialistas ouvidos sob reserva alertam que letras financeiras são títulos subordinados, geralmente os últimos na fila de pagamento em processos de liquidação. Na prática, isso significa que a chance de recuperação integral é baixa e pode se arrastar por anos, dependendo da venda de ativos do banco e do desfecho judicial.
O impacto potencial é direto: rombo atuarial, necessidade de aportes extras dos cofres municipais ou, no limite, comprometimento do pagamento futuro de benefícios. Quem paga a conta não é o gestor que assinou a aplicação, mas o servidor que contribuiu durante décadas.
O caso do Banco Master expõe uma falha recorrente na administração previdenciária brasileira: uso de dinheiro de aposentadoria como instrumento de aposta financeira. Previdência não é fundo de investimento. Quando essa linha é cruzada, o prejuízo deixa de ser abstrato — ele recai sobre quem não tem alternativa.










