A folia passou, os blocos terminaram e o país voltou à rotina. Mas, para milhões de brasileiros, o retorno à realidade veio acompanhado de contas acumuladas, dívidas e perda do poder de compra. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior percentual desde o início da série histórica da pesquisa.
Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada mensalmente pela entidade. O índice registrado representa alta de 0,7 ponto percentual em relação a janeiro de 2026 e um avanço de 3,8 pontos percentuais na comparação com fevereiro de 2025.
Na prática, isso significa que oito em cada dez famílias no país têm algum tipo de dívida, seja por meio de cartão de crédito, empréstimos pessoais, financiamento de veículos ou imóveis, carnês de lojas e crédito consignado.
Depois do período de festas, quando tradicionalmente há maior circulação de dinheiro e consumo ligado ao turismo e ao lazer, muitas famílias acabam se deparando com a fatura do cartão e outras despesas acumuladas. O resultado é um orçamento cada vez mais pressionado.
Entre todas as modalidades de crédito, o cartão de crédito continua sendo o principal responsável pelo endividamento, citado por cerca de 85% das famílias que possuem dívidas. A facilidade de uso e o parcelamento de compras acabam estimulando o consumo imediato, mas frequentemente empurram os compromissos financeiros para os meses seguintes.
A pesquisa também aponta um aumento da inadimplência, indicador que mede quantas famílias estão com contas em atraso. Atualmente, 29,6% dos brasileiros têm dívidas atrasadas, interrompendo uma sequência de três meses de queda nesse indicador.
Outro dado que chama atenção é o tempo médio de atraso, que gira em torno de 65 dias. Entre os inadimplentes, uma parcela significativa possui contas atrasadas há mais de três meses, situação que dificulta renegociações e aumenta o peso dos juros.
De acordo com economistas ouvidos pela CNC, o cenário reflete uma combinação de fatores que continuam pressionando o orçamento doméstico: juros elevados, inflação persistente e renda que não acompanha o aumento do custo de vida.
Com o poder de compra reduzido, muitas famílias recorrem ao crédito para manter despesas básicas, como alimentação, transporte e contas domésticas. Esse comportamento acaba ampliando o nível de comprometimento da renda com parcelas e financiamentos.
Especialistas alertam que um nível tão elevado de endividamento tende a afetar diretamente o consumo nos próximos meses, já que famílias muito comprometidas com dívidas costumam reduzir gastos no comércio e em serviços.
Assim, passada a euforia do Carnaval, a realidade econômica volta a pesar no bolso do brasileiro, que agora precisa reorganizar as finanças para enfrentar um cenário de crédito caro e renda cada vez mais pressionada.










