Fundações e institutos criados por famílias bilionárias brasileiras investem na formação de jovens líderes que hoje ocupam espaço no Congresso Nacional. O modelo é elogiado por uns e criticado por outros, que veem nisso um mecanismo de influência indireta do mercado financeiro sobre a política.
Um fenômeno vem ganhando força na política brasileira: o surgimento de jovens parlamentares com formação acadêmica destacada, forte presença na mídia e alinhamento com pautas de eficiência do Estado, responsabilidade fiscal e modernização da gestão pública. O que pouca gente sabe é que muitos desses nomes passaram por instituições financiadas por famílias bilionárias ligadas ao setor financeiro e empresarial, como a família Setubal, uma das controladoras do Itaú, e o grupo de investidores Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira.
Instituições como Fundação Estudar, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Itaú Social, RenovaBR, Vetor Brasil e Ensina Brasil atuam na formação de lideranças, oferecendo bolsas de estudo, cursos, mentorias e redes de contato que aceleram carreiras políticas. O discurso oficial é desenvolver lideranças com visão moderna de gestão, foco em educação e compromisso com o desenvolvimento do país.
Esses programas, porém, têm impacto direto na renovação do Congresso e das assembleias legislativas. Lideranças como Tabata Amaral, Felipe Rigoni, Tiago Mitraud e outros parlamentares da nova geração construíram trajetórias que passam por essas instituições.

No caso de Tabata Amaral, sua formação inclui bolsas e programas da Fundação Estudar, ligada ao trio de bilionários que comanda a 3G Capital. É reconhecido que ela circula na rede de instituições financiadas por grupos empresariais e financeiros, mas tudo de forma pública e declarada. A presença dela nessas iniciativas foi decisiva para sua projeção nacional e para sua pauta legislativa fortemente concentrada em educação e gestão pública baseada em evidências.
Os críticos, no entanto, apontam que essa rede de formação cria um eixo político ideológico alinhado aos interesses do mercado financeiro. Segundo eles, a presença dessas instituições acaba influenciando agendas econômicas, como defesa da autonomia do Banco Central, reformas estruturais liberais e políticas fiscais rígidas. Para esses analistas, é uma forma sutil de influência. Não é financiamento direto, que é proibido por lei desde 2015, mas sim a construção de lideranças formadas em ambientes empresariais que compartilham uma mesma visão de país.
Já os defensores afirmam que essas fundações cumprem um papel essencial de oxigenar a política, trazer quadros técnicos e qualificados e formar líderes que rompem com a velha política tradicional. Para eles, grandes problemas nacionais, como a crise da educação e a baixa produtividade do Estado, só podem ser enfrentados com lideranças bem preparadas, e o setor privado tem o direito de investir em formação sem interferir diretamente nas decisões políticas.
O ponto central do debate é a transparência. Embora as instituições atuem legalmente, a concentração de formação em torno de grupos econômicos poderosos levanta questionamentos sobre pluralidade ideológica e sobre o quanto essas redes moldam a visão de mundo das novas lideranças.
No Congresso, esse movimento já é perceptível. Jovens parlamentares apresentam projetos e votam em pautas que muitas vezes se alinham às teses defendidas por economistas ligados ao mercado financeiro, como responsabilidade fiscal, reformas estruturais e eficiência administrativa. Não há ilegalidade nisso, mas há influência.
No fim das contas, a política brasileira está sendo redesenhada por uma nova elite de formação. Uma elite que não nasce do movimento estudantil, de sindicatos ou de partidos tradicionais, mas dos laboratórios de liderança financiados por fundações empresariais. Essa mudança gera esperança e preocupação ao mesmo tempo, pois traz quadros técnicos, mas também reforça o poder de grupos econômicos já muito fortes no país.
A verdade é que a democracia se fortalece quando há clareza sobre quem forma, quem apoia e quem influencia o debate público. Com o avanço desses institutos, o Brasil entra em uma era em que a formação das lideranças é cada vez mais profissionalizada, mas também cada vez mais conectada aos interesses das famílias que comandam parte significativa da economia nacional.










