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Entre apoios, traições e o eterno “toma lá, dá cá”

A crise entre Câmara e PT expõe disputa interna e reacende o debate sobre a necessidade de um Senado conservador

O rompimento público entre o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o líder do PT, Lindbergh Farias, não é apenas mais um episódio de atrito político. É um sinal evidente de uma reconfiguração profunda na relação entre Executivo e Legislativo. Motta, até então aliado do governo, declarou não ter mais qualquer relação política com o petista após semanas de desgastes, acusações de comportamento autoritário nas reuniões e divergências sobre o PL Antifacção, projeto que endurece o enfrentamento ao crime organizado e que se tornou ponto de pressão entre as duas lideranças.

O estopim foi a escolha do relator Guilherme Derrite (PP-SP), criticada pela ala governista e tratada por Lindbergh como provocação. Motta, por sua vez, acusou o governo de criar narrativas falsas e usar o projeto para tentar desgastá-lo. O desfecho: ruptura declarada, crise instalada e uma fratura que enfraquece ainda mais a articulação política do Planalto na Câmara.

Se na Câmara o cenário é turbulento, no Senado o quadro não é melhor. Davi Alcolumbre, que já foi apoiado por Jair Bolsonaro na disputa pela presidência da Casa, vem se posicionando de forma clara no bloco antianistia, defendendo que qualquer proposta não pode, em hipótese alguma, beneficiar “lideranças de atos golpistas”. Ou seja: admite discutir algum tipo de modulação para réus de menor participação, mas rejeita a anistia ampla que setores do governo e parte da oposição articulavam.

Sua postura é vista por muitos como contradição política: apoiado pela direita no passado, Alcolumbre hoje serve como barreira para iniciativas que interessariam justamente à base conservadora que o ajudou a ascender. Ao se alinhar ao grupo antianistia, ele fortalece um eixo institucional que trava pautas consideradas essenciais por movimentos de direita, ao mesmo tempo em que amplia seu próprio capital de influência no Senado.

Esse conjunto de rupturas, Motta rompendo com o PT na Câmara e Alcolumbre assumindo protagonismo no travamento da anistia, evidencia uma verdade incômoda: senadores no Brasil já não utilizam mais a vontade popular como bússola de seus posicionamentos políticos. A distância entre eleitor e representante cresce a cada legislatura e abre espaço para distorções profundas na representação democrática.

O recado para 2026 é direto: se a direita deseja estabilidade institucional e avanço de pautas conservadoras, a eleição de novos senadores é indispensável. A renovação da Câmara é importante, mas o Senado é o verdadeiro gargalo político do país, onde projetos param, avançam ou são modificados ao gosto dos interesses internos.

A crise atual mostra, mais uma vez, que sem senadores comprometidos com a defesa dos valores conservadores, o Congresso continuará girando entre apoios e traições.

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