A postura adotada pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, após a prisão preventiva de Jair Bolsonaro, expõe uma ruptura que não pode ser tratada como neutralidade. Questionado sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal, Ibaneis afirmou apenas que o tema era assunto da Justiça e não dele. Essa frase, curta e calculada, teria pouco peso se viesse de um político que nunca compartilhou palanque com Bolsonaro. Mas vindo de um aliado direto, que recebeu apoio decisivo do ex presidente para se consolidar no Distrito Federal, o silêncio adquire contornos de abandono.
Ibaneis foi eleito impulsionado pela força do bolsonarismo. Bolsonaro o apresentou ao eleitor conservador do Distrito Federal, abriu portas políticas e conferiu legitimidade a uma candidatura que, sem esse apoio, talvez não tivesse alcançado o mesmo alcance. O governador sabe disso. Sua relação com a base conservadora foi construída com presença, discurso e benefícios políticos. Por isso, quando se recusa a comentar a prisão de Bolsonaro, ele rompe uma expectativa de solidariedade. Para a direita, especialmente para o eleitor fiel ao ex presidente, esse gesto soa como ingratidão.
O silêncio de Ibaneis não é espontâneo. Ele revela um cálculo político evidente. O Distrito Federal ainda vive os reflexos institucionais do episódio de oito de janeiro, e qualquer declaração mais dura sobre o Supremo Tribunal Federal poderia reacender desgastes. Além disso, Ibaneis busca preservar sua imagem administrativa, evitando assumir riscos que possam comprometer sua relação institucional. É um movimento pensado para proteger seu mandato. No entanto, essa proteção tem custo. O eleitor conservador valoriza lealdade e repudia aliados que desaparecem nos momentos críticos.
A atitude do governador não afeta apenas sua imagem individual. Ela sinaliza algo maior dentro da direita brasileira. Muitos políticos que ascenderam sustentados pela força eleitoral de Bolsonaro agora tentam se afastar para preservar carreiras, evitar confrontos com instituições ou reposicionar suas trajetórias. Esse comportamento cria uma divisão clara entre os que permanecem firmes ao lado do ex presidente e os que ajustam o discurso conforme o cenário.
O eleitor conservador observa com atenção cada movimento. A direita está passando por um momento de reavaliação profunda, e episódios como o silêncio de Ibaneis ajudam a distinguir aliados de ocasião de aliados genuínos. Ao lavar as mãos diante da prisão de quem o ajudou a chegar ao poder, Ibaneis revela mais sobre suas prioridades do que sobre o caso em si. Seu silêncio fala alto, e fala contra ele.










